Esta sensação dilacera. Às vezes é mais angustiadora que a melancolia da saudade da infância inocente. Não se trata da tamanha dor de quem carrega um peso contra o julgamento quase unânime e sórdido, mas sim do medo de cair, medo de ter perdido o controle das próprias ações, medo de ironias do destino, medo de ter se deixado levar em vão.
Fico deitado no escuro fazendo uma prece e a música consoladorada se propaga nos ambientes em volume máximo.
Adentro numa festa underground e me coloco a buscar a tecelagem de minha teia, descendo e subindo num elevador minúsculo e arcaico, tão velho quanto a dinastia do desprezo, mas que me possibilita encostar minha cabeça em seu ferro gélido e crú para pausar as pertubações da alma. É logo que no segundo pavimento, dou de cara numa convidativa janela. Ali, como numa amplitude teatral, eu olhava paulatinamente a rua das ilusões e suas poças de chuva em seu asfalto histórico. E as árvores aplaudiam minhas lágrimas mornas que surgiam feito ondas de água doce: praticamente imperceptíveis. Era uma enchurrada de gotas presas, ao som de algum seguidor de Mr Presley.
Mas, as árvores deixam de ser platéia, sacudidas pelo ar frio ao tempo que as paredes querem dilacerar minha carne no chão maestroso do Recife Velho.
Contudo, um alguém com aroma de cevada me dá um abraço, e um laço se cria. Não me conhece, não sabe o que pode se passar, mas me dirige palavras que o diabo não pode morder.
E me recordo do dia de sol que andei transtornado entre os corpos e carros da redenção de Santo Amaro, onde os ventos embarcaram meu olhar na parede interna de um simples boteco que trazia o letreiro: "Deus está no comando de tudo".
Caiu como um alívio imediato. Porém é fato que as horas e o despertar de pesadelos incógnitos, retrazem as sensações cruéis branco-e-preto.
Olho ao chão e vejo o cafuso varrer rispidamente a lama que reflete o meu olhar seco, e acabo desejando ser lavado, tocado pela luz desconhecida, criacionista, pelo mar em vida plena.
É na alvorada da lua, com os pássaros gritando piedade, que a eterna luta se segue na marcha solitária e bravante, pois a luta mais árdua é contra si próprio.
02h46 30/11/08.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
domingo, 30 de novembro de 2008
Mariposas Enamoradas
Já me descrevia como mariposa que queria fugir do casulo modelar sem se quer cogitar que uma outra mariposa me traria claridade...
Você resgatou minhas sensações do abismo chamado coração das mariposas. E foi através das "Mariposas Suicidas" que eu te vi: toda aquela magia figurada, aquela cartase sobre o Amor ficou presa em meu olhar e palavras por longos dias. Até que numa noite inspiradora, com a luz em minha face, eu me desprendia da neutralidade e caia no estranhamento a professar em melodia ríspida que "ele se revela uma farsa" e movimentando levemente minha cabeça te encontrei em expressão sólida na primeira cadeira à direita. Assim, após juntar-me a um coro operário e cantar que "estranhem o que não for estranho" e sentar pra um debate semanal sobre musicalidade, quarta parede e até socialização dos preconceitos, com tantas caras e palavras, eu estava sentado de frente a ti, e pude sem a mínima malícia perceber os teus traços e cores.
E adiante, horas depois de ver Os Cegos perderem uma luta conta a Morte e tocarem de maneira considerável a minha alma, te reencontrei inúmeras vezes. Te tocava com os olhos, trocava palavras breves e trêmulas. E em pessoas que piscam, acabei por te beijar, e não conseguia ouvir mais a batida explosiva que caracterizava aquele ambiente, nem sentia os esbarros propositais.
Quase oito semanas depois, você me retirou da fechadura e me fez alavanca com seu sorriso explendido. O teu toque é capaz de apagar minha angústia. Tua pronúncia retoca a minha pele. Os teus beijos saciam minhas ânsias. Me anestesias por inteiro. Você parece que veio de uma caverna distante. Talvez de Londres, Pittsburg, Blumenal ou Liver Pool, arrisco dizer que tenhas vindo de Tácito pra me recolocar voz com tua luz, e quem sabe pra me trazer o conforto de poder amar.
És parte de minha fantasia real, natureza total dos meus pensamentos e o motivo pelo qual exigo que me expulsem do labirinto da solidão.
Então, só peço que continueis em minhas páginas, minha mariposa iluminada!
03h14. 30/11.
Você resgatou minhas sensações do abismo chamado coração das mariposas. E foi através das "Mariposas Suicidas" que eu te vi: toda aquela magia figurada, aquela cartase sobre o Amor ficou presa em meu olhar e palavras por longos dias. Até que numa noite inspiradora, com a luz em minha face, eu me desprendia da neutralidade e caia no estranhamento a professar em melodia ríspida que "ele se revela uma farsa" e movimentando levemente minha cabeça te encontrei em expressão sólida na primeira cadeira à direita. Assim, após juntar-me a um coro operário e cantar que "estranhem o que não for estranho" e sentar pra um debate semanal sobre musicalidade, quarta parede e até socialização dos preconceitos, com tantas caras e palavras, eu estava sentado de frente a ti, e pude sem a mínima malícia perceber os teus traços e cores.
E adiante, horas depois de ver Os Cegos perderem uma luta conta a Morte e tocarem de maneira considerável a minha alma, te reencontrei inúmeras vezes. Te tocava com os olhos, trocava palavras breves e trêmulas. E em pessoas que piscam, acabei por te beijar, e não conseguia ouvir mais a batida explosiva que caracterizava aquele ambiente, nem sentia os esbarros propositais.
Quase oito semanas depois, você me retirou da fechadura e me fez alavanca com seu sorriso explendido. O teu toque é capaz de apagar minha angústia. Tua pronúncia retoca a minha pele. Os teus beijos saciam minhas ânsias. Me anestesias por inteiro. Você parece que veio de uma caverna distante. Talvez de Londres, Pittsburg, Blumenal ou Liver Pool, arrisco dizer que tenhas vindo de Tácito pra me recolocar voz com tua luz, e quem sabe pra me trazer o conforto de poder amar.
És parte de minha fantasia real, natureza total dos meus pensamentos e o motivo pelo qual exigo que me expulsem do labirinto da solidão.
Então, só peço que continueis em minhas páginas, minha mariposa iluminada!
03h14. 30/11.
sábado, 8 de novembro de 2008
Incomum
"Que belo estranho dia pra se ter alegria!"
Lula Queiroga
Lula Queiroga
Hoje o sol resplandeceu em minha face um sorriso enamorado, tudo está numa neutralidade harmônica.
Hoje, o infortúnio trânsito do Derby não irá me constranger. A poluição visual das propagandas politiqueiras que ainda sujam algumas faixadas e calçadas da cidade nem irão me irritar. Nem se quer o imperialismo do consumo me vitimará. O genocídio declarado da pureza será ofuscado.
Pois hoje, a noite resplandecerá numa aquarela florida de amor. Os palcos irão insinuar a todo mundo como deve soar a arte. Flamingos, Araras-Azuis, Curiós e Onças-Pintadas entoarão um coro maestroso em plena Amazônica contra a extinção.
Hoje, alternativo e convencional se unirão como nunca antes, fazendo com que a tolerância ganhe significado real. O subúrbio terá alcançada sua suntuosidade e os homens de rua encantarão com graça e sensibilidade.
As avenidas estarão cobertas por folhas secas e as praias límpidas em brisa plena.
Ondas de inquietação provocarão o progresso pelos sindicatos e prédios.
Teatros e cinemas se encontrarão repletos com a magia da juventude outrora inerte.
Os automóveis serão largados nas garagens e as pessoas enfeitarão a cidade com olhares.
Hoje, a dita irremediável violência será ofuscada pela luz. Os rios fluirão em brilho eterno.
Corpos garbosos e rostinhos perfeitos sumirão da televisão. O dom será algo quase palpável e sensitivo.
Os jardins cantarão hinos de felicidade e os boêmios chegarão a proclamar a independência matinal.
Não enxergaremos a fome nas calçadas, nem ouviremos as balelas brasilienses. Sentiremos coletivamente a pureza do verde, e as cabeças quase sempre surtadas serão aliviadas pelo toque infantil.
Os jornais divulgarão os conceitos introspectivos. A filosofia transcenderá na mentalidade da famigerada massa, que descartará a mídia.
Nas beiradas dos manguezais a lama traduzirá inspiração recifense e até os mais capitalistas se renderão à embolada multicultural.
Em mais alto tom os anciões expressarão suas inquietudes. Professores estamparão sorrisos brados.
Mas, é na mais alta entonação desta melodia perfeita, que o som falha. Meninas estão sendo mortas em seqüestros televisionados. Farsas musicais voltaram ao topo de nossas paradas. Meninos brasileiros estão virando seriais Killers. Palhaços de terno retornaram ao poder com a aprovação da massa. E estão mudando a estruturação de nossa língua enquanto crianças são mortas nas chacinas. Homossexuais regrediram aos guetos e o invisível apartheid retornou ao cotidiano.
Contudo, é em meio à nossa esplêndida balbúrdia que o samba de Roberta* semeia sua mensagem em nossos cinco cantos fazendo com que a esperança brote em poucos, mas se faça presente ao menos neste escrito de quem clama por misericórdia individual.
*Roberta Sá, intérprete da música em epígrafe, “Belo e Estranho dia de Amanhã”, composta pelo pernambucano Lula Queiroga.
quinta-feira, 9 de outubro de 2008
Dias Vazios
Estava a pensar nas palavras que melhor refletissem a trilha pela Serra Negra com toda a sua ambiguidade e suavidade dos olhares platônicos e diálogo curto com aquela paixão de adolescência de cabelos enrolados e sorriso doce.
Mas, os últimos dias, em que apenas os minutos de atuação me fazem sentir vida, venho descrever acerca do elo depressivo que obtenho.
A guriazinha de alma pura, que em nossa infância católica jamais imaginaríamos nos reencontrar em uma certa Garagem das Ilusões após um rock alternativo de janeiro, adentrou em meu terraço exatamente no instante em que meus dedos trêmulos seguravam a chave com o intuito de ir em busca deste ombro amigo condicional.
Iniciamos assim nossa conversa aliviadora em nossos olhares fraternais que falam bem mais que os murmúrios das sextas-feiras habituais. E ela começou a derramar lágrimas expressivamente belas por sua face caucasiana e frágil. Sem ousar em bater minhas pálpebras eu ouvia o relato de seus dias, que a mesma descreveu como vazios, e inesperadamente apreendia através de seus lábios o relato de meus próprios dias. Sim! Eu e ela, Elilson e Carla, estávamos num estado equivalente.
Assim, após nos abraçarmos e dedicarmos uma prosa acerca da política, eu fui buscar consolo numa noite dançante, mas é grande fato que odeio a efemeridade das noites, estas que não deixam brechas a constituirmos se quer uma paixão pelas bocas e mãos que usufruírmos em carência e beijos ardentes.
No dia seguinte, fui acordado pelo toque daquela mão amiga em minha face. Saímos em uma trajetória curta e bastante significativa. Fomos pela primeira vez exercer a nossa voz nas urnas e depois seguimos até a magia inspiradora do Recife Antigo dominical, com os pombos enfeitando o Arsenal, o vento acariciando os prédios e o vinho embalando a pronúncia saudosa das palavras que relembravam os amores inacabados e as experiências amargas e dúbias.
Foi então que ressoaram em meus ouvidos os melódicos aplausos que os Operários que Lêem haviam recebido naquelas performances Brechtianas e senti uma força artística em seguir em frente.
Contudo, olhei ao horizonte entardecido de incertezas e receios, e acabei por concluir que sou como a raposa de O Pequeno Príncipe, logo ainda não fui cativado.
Mas, os últimos dias, em que apenas os minutos de atuação me fazem sentir vida, venho descrever acerca do elo depressivo que obtenho.
A guriazinha de alma pura, que em nossa infância católica jamais imaginaríamos nos reencontrar em uma certa Garagem das Ilusões após um rock alternativo de janeiro, adentrou em meu terraço exatamente no instante em que meus dedos trêmulos seguravam a chave com o intuito de ir em busca deste ombro amigo condicional.
Iniciamos assim nossa conversa aliviadora em nossos olhares fraternais que falam bem mais que os murmúrios das sextas-feiras habituais. E ela começou a derramar lágrimas expressivamente belas por sua face caucasiana e frágil. Sem ousar em bater minhas pálpebras eu ouvia o relato de seus dias, que a mesma descreveu como vazios, e inesperadamente apreendia através de seus lábios o relato de meus próprios dias. Sim! Eu e ela, Elilson e Carla, estávamos num estado equivalente.
Assim, após nos abraçarmos e dedicarmos uma prosa acerca da política, eu fui buscar consolo numa noite dançante, mas é grande fato que odeio a efemeridade das noites, estas que não deixam brechas a constituirmos se quer uma paixão pelas bocas e mãos que usufruírmos em carência e beijos ardentes.
No dia seguinte, fui acordado pelo toque daquela mão amiga em minha face. Saímos em uma trajetória curta e bastante significativa. Fomos pela primeira vez exercer a nossa voz nas urnas e depois seguimos até a magia inspiradora do Recife Antigo dominical, com os pombos enfeitando o Arsenal, o vento acariciando os prédios e o vinho embalando a pronúncia saudosa das palavras que relembravam os amores inacabados e as experiências amargas e dúbias.
Foi então que ressoaram em meus ouvidos os melódicos aplausos que os Operários que Lêem haviam recebido naquelas performances Brechtianas e senti uma força artística em seguir em frente.
Contudo, olhei ao horizonte entardecido de incertezas e receios, e acabei por concluir que sou como a raposa de O Pequeno Príncipe, logo ainda não fui cativado.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Ética Informacional
A utilização da internet já é algo globalizado nas necessidades básicas dos que têm acesso à rede. Segundo dados das Nações Unidas em 1997 o número de internautas era de 70 milhões enquanto em 2007 ultrapassou a marca dos 1200 milhões.
O grande número percentual desse exorbitante contexto de uso corresponde as crianças e adolescentes. Tão clara quanto essa porcentagem é a enorme ocorrência de crimes na rede. Transações de assaltos, pedofilia, racismo, homofobia e a ação dos hackers são frequências alarmantes, inclusive nos sites de relacionamento, como o ORKUT, favorito predominantemente pelos menores de idade.
Diante de tais fatos é evidente que crianças e jovens são os mais inerentes em toda essa rede de criminalidade. Se não bastasse, nos últimos anos, entraram em ascenção páginas na web que incentivam o suicídio. No Brasil, isto ficou evidente através da morte de um menor sudestino usuário do site "suicidio.com".
Segundo os especialistas a grande decorrência de abusos contra menores internautas é basicamente a falta de leis específicas e além disso sobretudo a inércia dos pais que na maioria não controlam ou mesmo acompanham seus filhos no mundo virtual.
Concluo, sob meu ponto de vista, que a diminuição destes rotineiros abusos devem partir de uma estruturação moral iniciante da integração dos pais fiscalizando seus filhos na rede, atigindo a estabilidade de uma ética informacional, pois os menores internautas de hoje podem ser os criminosos cibernéticos do futuro.
O grande número percentual desse exorbitante contexto de uso corresponde as crianças e adolescentes. Tão clara quanto essa porcentagem é a enorme ocorrência de crimes na rede. Transações de assaltos, pedofilia, racismo, homofobia e a ação dos hackers são frequências alarmantes, inclusive nos sites de relacionamento, como o ORKUT, favorito predominantemente pelos menores de idade.
Diante de tais fatos é evidente que crianças e jovens são os mais inerentes em toda essa rede de criminalidade. Se não bastasse, nos últimos anos, entraram em ascenção páginas na web que incentivam o suicídio. No Brasil, isto ficou evidente através da morte de um menor sudestino usuário do site "suicidio.com".
Segundo os especialistas a grande decorrência de abusos contra menores internautas é basicamente a falta de leis específicas e além disso sobretudo a inércia dos pais que na maioria não controlam ou mesmo acompanham seus filhos no mundo virtual.
Concluo, sob meu ponto de vista, que a diminuição destes rotineiros abusos devem partir de uma estruturação moral iniciante da integração dos pais fiscalizando seus filhos na rede, atigindo a estabilidade de uma ética informacional, pois os menores internautas de hoje podem ser os criminosos cibernéticos do futuro.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Equilíbrio Despossuído
As pressões populares querem me aprisionar numa caixa seguradamente trancada.
Sinto-me num tabuleiro de xadrez. Ora tenho a garbosidade de um rei. Ora transpareço a fortaleza exímia de uma torre, mas inesperadamente sou um solitário peão, aspirando respostas e exprimindo inquietações à deriva.
Minha mente tem retornado ao estado de transe. Às vezes só é dessa maneira confusa que consigo imaginar um equilíbrio.
E assim, na tarde passada, eu caminhei sem rumo nesta caótica cidade. Eu necessitava apreender algo inusitado, mas preciso. Queria poder enxergar, quem sabe, o sorriso de um vegetal ou ansiar afeto nos olhares ao redor. Mas, nessa cidade linda e cinza, as pessoas perdem cada vez mais a essência do cotidiano social: o olhar. As pessoas não se olham mais. Estão sempre com pressa buscando uma fuga sem limites, sem diretrizes e certamente sem certezas.
Talvez ainda, eu quisesse ter o meu trabalho físico calculado para assim as forças contrárias que atuam em meu corpo serem anuladas e reconstituídas sob uma luz específica e sensata.
O fato é que ao caminhar entre carros, animais, esbarros, propagandas políticas e seus sorrisos equivocados, eu cheguei ao Marco Zero da cidade. Ali eu me coloquei na margem. Sentei numa elevação do asfalto que ao ritmo feito pelos automóveis que transitam sem pausas naquela curva serena, me possibilitava uma visão privilegiada do nada.
Foram minutos válidos. Identifiquei-me com a ambigüidade dos mendigos, com os traços das pinturas e com o aroma da erva que estava perto de meus solados. Fechava e abria as minhas pálpebras calmamente. E despercebido por tudo me encontrava. Levantei levemente o meu pescoço e pude sentir a pintura que as aves faziam no céu escuro.
Tenho me colocado a pensar no dia em que tudo poderá explodir de vez. Vejo claramente que não terei um casulo remediador pra me abrigar, entretanto apenas será uma fase. Afinal, a vida é uma eterna escalada onde os degraus são feitos de mudanças, complexidade e nostalgia.
Ainda olhava ao firmamento quando a minha neutralidade foi quebrada por uma infeliz e insensata paródia musical de um certo candidato que poluía sem medidas os tantos cantos daquele Marco.
Assim, naquela tarde de sorriso quebrado, lembrei que Brecht* invade minha atuação e me faz professar que me encontro entre os despossuídos. Levantei-me de supetão e corri ao ponto aguardando que um novo amor numa poesia expressiva me recoloque dentre os seres de voz.
*Bertolt Brecht, teatrólogo e escritor alemão. Referência de sua poesia "Expulso por um Bom Motivo".
Sinto-me num tabuleiro de xadrez. Ora tenho a garbosidade de um rei. Ora transpareço a fortaleza exímia de uma torre, mas inesperadamente sou um solitário peão, aspirando respostas e exprimindo inquietações à deriva.
Minha mente tem retornado ao estado de transe. Às vezes só é dessa maneira confusa que consigo imaginar um equilíbrio.
E assim, na tarde passada, eu caminhei sem rumo nesta caótica cidade. Eu necessitava apreender algo inusitado, mas preciso. Queria poder enxergar, quem sabe, o sorriso de um vegetal ou ansiar afeto nos olhares ao redor. Mas, nessa cidade linda e cinza, as pessoas perdem cada vez mais a essência do cotidiano social: o olhar. As pessoas não se olham mais. Estão sempre com pressa buscando uma fuga sem limites, sem diretrizes e certamente sem certezas.
Talvez ainda, eu quisesse ter o meu trabalho físico calculado para assim as forças contrárias que atuam em meu corpo serem anuladas e reconstituídas sob uma luz específica e sensata.
O fato é que ao caminhar entre carros, animais, esbarros, propagandas políticas e seus sorrisos equivocados, eu cheguei ao Marco Zero da cidade. Ali eu me coloquei na margem. Sentei numa elevação do asfalto que ao ritmo feito pelos automóveis que transitam sem pausas naquela curva serena, me possibilitava uma visão privilegiada do nada.
Foram minutos válidos. Identifiquei-me com a ambigüidade dos mendigos, com os traços das pinturas e com o aroma da erva que estava perto de meus solados. Fechava e abria as minhas pálpebras calmamente. E despercebido por tudo me encontrava. Levantei levemente o meu pescoço e pude sentir a pintura que as aves faziam no céu escuro.
Tenho me colocado a pensar no dia em que tudo poderá explodir de vez. Vejo claramente que não terei um casulo remediador pra me abrigar, entretanto apenas será uma fase. Afinal, a vida é uma eterna escalada onde os degraus são feitos de mudanças, complexidade e nostalgia.
Ainda olhava ao firmamento quando a minha neutralidade foi quebrada por uma infeliz e insensata paródia musical de um certo candidato que poluía sem medidas os tantos cantos daquele Marco.
Assim, naquela tarde de sorriso quebrado, lembrei que Brecht* invade minha atuação e me faz professar que me encontro entre os despossuídos. Levantei-me de supetão e corri ao ponto aguardando que um novo amor numa poesia expressiva me recoloque dentre os seres de voz.
*Bertolt Brecht, teatrólogo e escritor alemão. Referência de sua poesia "Expulso por um Bom Motivo".
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Rotina Sertaneja
Naquela manhã dominical escaldante eles se reuniram na estação de ônibus. Já era habitual. Semanalmente alguns habitantes de Água Preta iam em busca da capital.
Anciões, adultos, crianças...todos eram retirantes. Eles largavam sua terra, suas histórias, seus amores, e nesta nostalgia complexa, as condições sócio-naturais os obrigavam a se arriscarem na busca esperançosa de um futuro mais digno e feliz.
De longe, sentado numa cadeira de couro, um nobre artista observava sensivelmente os sete retirantes daquele domingo. Uma velhinha sentada numa cadeira marrom, segurava um terço vermelho enquanto o suor escorria em sua testa. Três lavadeiras locais aguardavam angustiosamente o coletivo. Haviam também dois anciões. Um deles, de camisa azul listrada, apresentava uma expressão fleumática, fria. O outro, acompanhado de um cãozinho abatido, sorria ao sabor do vento.
Dias depois, longe dali em Caruaru, um certo Vitalino que minuciosamente observou com lamento a retirada naquele outro município, se pôs a lembrar os efêmeros minutos antes da chegada do coletivo, e retratou através de sua arte singular e espositivista o sofrimento daquelas vidas hoje perdidas entre prédios e "humanos".
Anciões, adultos, crianças...todos eram retirantes. Eles largavam sua terra, suas histórias, seus amores, e nesta nostalgia complexa, as condições sócio-naturais os obrigavam a se arriscarem na busca esperançosa de um futuro mais digno e feliz.
De longe, sentado numa cadeira de couro, um nobre artista observava sensivelmente os sete retirantes daquele domingo. Uma velhinha sentada numa cadeira marrom, segurava um terço vermelho enquanto o suor escorria em sua testa. Três lavadeiras locais aguardavam angustiosamente o coletivo. Haviam também dois anciões. Um deles, de camisa azul listrada, apresentava uma expressão fleumática, fria. O outro, acompanhado de um cãozinho abatido, sorria ao sabor do vento.
Dias depois, longe dali em Caruaru, um certo Vitalino que minuciosamente observou com lamento a retirada naquele outro município, se pôs a lembrar os efêmeros minutos antes da chegada do coletivo, e retratou através de sua arte singular e espositivista o sofrimento daquelas vidas hoje perdidas entre prédios e "humanos".
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