Os felinos em abstinência do miado:
E o ato se pôs no silêncio.
Nas brechas das grades
Entoei meu olhar.
Um a um dormiam os gatos.
Cada um em seu ponto,
Formavam um polígono irregular,
No amplo pátio.
Simplesmente despercebidos
Enfatizaram-me com sua organização
Que me deteve a ação.
Até que o ponto de luz se acendeu
E ao meio deles pude ver
Uma minúscula ave partilhando a calmaria
Que cobria a rebeldia da cadeia alimentar.
E na mesma rua Sete,
A parede rudimentar
Que lamentava os oprimidos
Enfatizava então o brilho dos nobres
Felinos.
Seção: (Re)postagens no Filosofia
Postado originalmente às 14:11 do dia 18 de Junho de 2008.
sábado, 9 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Harmonia
Quero me entregar aos teus pingos.
Fazer-me devorado por tua magnitude singular.
Sentir o meu peso ser aliviado por teu minucioso e suntuoso toque.
Cobrir minha mente com um enfoque de bênçãos da tua granulometria líquida.
E, então, lamber-te em tua ausência de sabor.
Graciar-me com a sensação de liberdade eterna que a todos tende a oferecer.
Anseio que coloques sensação vital em minha espinha, que retires o recalque desvirginado.
E tu me darás uma natural licença poética exigida por Adélia.*
O que ainda faço na coberta, se tu, harmônica chuva, me convidas a constante inquietação de teus limitados e ásperos passos?
*Faço referência ao texto "Com Licença Poética" de Adélia Prado.
Seção: (Re)postagens no Filosofia.
Escrito originalmente no dia 1 de Julho de 2008, postado às 11:26.
Não dedico essas palavras a nenhuma paixão, quero dedicá-las a chuva e tão somente à poça de água que foi o ponto de partida para a fabricação desse texto que tanto amo.
Fazer-me devorado por tua magnitude singular.
Sentir o meu peso ser aliviado por teu minucioso e suntuoso toque.
Cobrir minha mente com um enfoque de bênçãos da tua granulometria líquida.
E, então, lamber-te em tua ausência de sabor.
Graciar-me com a sensação de liberdade eterna que a todos tende a oferecer.
Anseio que coloques sensação vital em minha espinha, que retires o recalque desvirginado.
E tu me darás uma natural licença poética exigida por Adélia.*
O que ainda faço na coberta, se tu, harmônica chuva, me convidas a constante inquietação de teus limitados e ásperos passos?
*Faço referência ao texto "Com Licença Poética" de Adélia Prado.
Seção: (Re)postagens no Filosofia.
Escrito originalmente no dia 1 de Julho de 2008, postado às 11:26.
Não dedico essas palavras a nenhuma paixão, quero dedicá-las a chuva e tão somente à poça de água que foi o ponto de partida para a fabricação desse texto que tanto amo.
sábado, 2 de janeiro de 2010
[Re] Postagens no Filosofia
Caro companheiro, de Pernambuco ou de Moçambique, você que vez ou outra acompanha minhas confissões e meus devaneios nesse blog, não se assuste se ao ler algumas postagens que farei, sua memória apontar que já conhece tais letras.
Por motivos pessoais, quase profissionais (rs) e displicentes, tive de delatar desse espaço tão pessoal e público alguns textos. Acredito que são cerca de cinco introspecções. Guardei os comentários em algum CD que hei de encontrar por esses novos dias de Janeiro, tenho fé!
Se precisar, em 2010, apagarei alguns posts e depois (re)postarei-os.
Sei que já fiz um post antes desse, mas nunca é tarde para desejar um novo ciclo repleto de Harmonia, Luz, Sucesso, Saúde, Energia e Filosofia e Introspecção para todos nós.
Que não esqueçamos que a Literatura, assim como todas as Artes, independente de conceitos e avaliações é uma linguagem universal que une a todos nós. Se consegue nos atingir já é um outro papo, mas o fato de corajosamente escrevermos é algo relevante.
Um abraço, nos esbarramos por essas próximas linhas.
Feliz 2010!
Por motivos pessoais, quase profissionais (rs) e displicentes, tive de delatar desse espaço tão pessoal e público alguns textos. Acredito que são cerca de cinco introspecções. Guardei os comentários em algum CD que hei de encontrar por esses novos dias de Janeiro, tenho fé!
Se precisar, em 2010, apagarei alguns posts e depois (re)postarei-os.
Sei que já fiz um post antes desse, mas nunca é tarde para desejar um novo ciclo repleto de Harmonia, Luz, Sucesso, Saúde, Energia e Filosofia e Introspecção para todos nós.
Que não esqueçamos que a Literatura, assim como todas as Artes, independente de conceitos e avaliações é uma linguagem universal que une a todos nós. Se consegue nos atingir já é um outro papo, mas o fato de corajosamente escrevermos é algo relevante.
Um abraço, nos esbarramos por essas próximas linhas.
Feliz 2010!
Resíduos.
De frente a esse vidro manchado,
Não estou pintando a cara
Nem estou devorando meus traços.
É o silêncio que me guia,
Guia o meu corpo sentado.
Apenas há uma brisa melancólica
Que respinga a minha nuca.
Quatro paredes que cercam
A visão que tenho de mim mesmo.
Talvez esses fungos no espelho
Sejam uma miragem dos meus olhos.
Olhos que admiram suas próprias,
Suas adultas e viris lágrimas.
Admiravelmente incolores.
Talvez esses fungos no vidro,
sejam mais a minha alma.
Que nem se conhece aos detalhes,
Que nunca é centrada em si.
Esfrego espumas no reflexo,
Mas os fungos ganham ampliação.
Qual o sabão que limparia
A sujeira da minha alma?
Não estou pintando a cara
Nem estou devorando meus traços.
É o silêncio que me guia,
Guia o meu corpo sentado.
Apenas há uma brisa melancólica
Que respinga a minha nuca.
Quatro paredes que cercam
A visão que tenho de mim mesmo.
Talvez esses fungos no espelho
Sejam uma miragem dos meus olhos.
Olhos que admiram suas próprias,
Suas adultas e viris lágrimas.
Admiravelmente incolores.
Talvez esses fungos no vidro,
sejam mais a minha alma.
Que nem se conhece aos detalhes,
Que nunca é centrada em si.
Esfrego espumas no reflexo,
Mas os fungos ganham ampliação.
Qual o sabão que limparia
A sujeira da minha alma?
domingo, 27 de dezembro de 2009
Menina de Ouro
Ana Laura é a filha mais elogiada da rua. É uma artista descoberta por poucos. É inteligente, sensível, autêntica e às vezes arrogante.
Rodeada de agitação, Ana Laura prefere mesmo o isolamento. Isolamento em meio público. De alguma maneira isso é atingível para ela. É uma jovem de atitudes contidas. Seu distúrbio é o gosto pelo perigo.
Nunca planeja, mas sempre que acontece é como um delírio cinematográfico. Ela assume uma personagem que não conhece, às vezes apresenta-a como Amanda. Amanda assume o lugar de Ana Laura quando esse furor interno toma conta das reações de seu cérebro e das ações de seu corpo. A entrada de Amanda em cena tem como clímax a busca pelo perigo.
Ocorreu pela primeira vez quando ela ainda tinha uns 14 anos. Estava sozinha na parada de ônibus, mas ainda era cedo. Um carro cor de vinho diminuiu a velocidade, o motorista baixou o vidro e secou a menina da cabeça aos pés. Era uma mulher atraente. A mulher deu partida e em poucos minutos estava lá de novo. Já estavam no ponto mais uns 3 pedestres, mas Ana Laura respirou nervosa, andou alguns passos e tremendo abriu a porta do carro.
Ela se apresentou como Amanda. A mulher, loira e aparentemente saudável, deu voltas pelas ruas da cidade, enquanto elas conversavam sobre suas vidas e se tocavam. Até o momento em que Ana Laura pediu para descer num impulso imediato. Nunca mais se reencontraram.
Ana Laura resistiu até completar 16 anos de idade, quando a ânsia pela sensação de perigo voltou. Retornou a frequentar o mesmo ponto de ônibus, como se na rua houvesse quatro paredes cercando ela, sua ânsia e o próximo automóvel desconhecido. Ela aceitou caronas de homens e mulheres. Mulheres foram apenas duas. Os homens se insinuavam com mais frequência. Ela não era como uma prostituta. Não buscava sexo ou dinheiro. Talvez ela fosse como uma prostituta psicológica. Aquela sensação de negligência com a própria vida, de objeto de crime e de ilegalidade lhe davam minutos de glória. Ela podia ser quem quisesse. Num dia tinha 19 anos, no outro era potiguar, estudante de publicidade, bailarina...
Não havia limites no seu perigo, exceto o cuidado que tinha em relação ao sexo, talvez por ainda ser virgem, como dizem. Era claro para Ana Laura o único interesse daquelas pessoas e ela deixava que lhe tocassem um pouco. Suas mãos raras vezes faziam o mesmo. Esse aspecto sexual era parte crucial da sua loucura secreta.
Semana passada eu a vi na mesma parada segurando um livro e destampando e tampando compulsivamente uma caneta estereográfica. Um homem parou o carro, seu ônibus vinha logo atrás e ela recusou a gentileza.
Agora, Ana Laura está na cozinha de sua casa, lendo poemas e deglutindo as sobras da ceia de Natal, pensando em sexo e querendo que ninguém imite sua loucura particular que há tempos não entra em cena.
Rodeada de agitação, Ana Laura prefere mesmo o isolamento. Isolamento em meio público. De alguma maneira isso é atingível para ela. É uma jovem de atitudes contidas. Seu distúrbio é o gosto pelo perigo.
Nunca planeja, mas sempre que acontece é como um delírio cinematográfico. Ela assume uma personagem que não conhece, às vezes apresenta-a como Amanda. Amanda assume o lugar de Ana Laura quando esse furor interno toma conta das reações de seu cérebro e das ações de seu corpo. A entrada de Amanda em cena tem como clímax a busca pelo perigo.
Ocorreu pela primeira vez quando ela ainda tinha uns 14 anos. Estava sozinha na parada de ônibus, mas ainda era cedo. Um carro cor de vinho diminuiu a velocidade, o motorista baixou o vidro e secou a menina da cabeça aos pés. Era uma mulher atraente. A mulher deu partida e em poucos minutos estava lá de novo. Já estavam no ponto mais uns 3 pedestres, mas Ana Laura respirou nervosa, andou alguns passos e tremendo abriu a porta do carro.
Ela se apresentou como Amanda. A mulher, loira e aparentemente saudável, deu voltas pelas ruas da cidade, enquanto elas conversavam sobre suas vidas e se tocavam. Até o momento em que Ana Laura pediu para descer num impulso imediato. Nunca mais se reencontraram.
Ana Laura resistiu até completar 16 anos de idade, quando a ânsia pela sensação de perigo voltou. Retornou a frequentar o mesmo ponto de ônibus, como se na rua houvesse quatro paredes cercando ela, sua ânsia e o próximo automóvel desconhecido. Ela aceitou caronas de homens e mulheres. Mulheres foram apenas duas. Os homens se insinuavam com mais frequência. Ela não era como uma prostituta. Não buscava sexo ou dinheiro. Talvez ela fosse como uma prostituta psicológica. Aquela sensação de negligência com a própria vida, de objeto de crime e de ilegalidade lhe davam minutos de glória. Ela podia ser quem quisesse. Num dia tinha 19 anos, no outro era potiguar, estudante de publicidade, bailarina...
Não havia limites no seu perigo, exceto o cuidado que tinha em relação ao sexo, talvez por ainda ser virgem, como dizem. Era claro para Ana Laura o único interesse daquelas pessoas e ela deixava que lhe tocassem um pouco. Suas mãos raras vezes faziam o mesmo. Esse aspecto sexual era parte crucial da sua loucura secreta.
Semana passada eu a vi na mesma parada segurando um livro e destampando e tampando compulsivamente uma caneta estereográfica. Um homem parou o carro, seu ônibus vinha logo atrás e ela recusou a gentileza.
Agora, Ana Laura está na cozinha de sua casa, lendo poemas e deglutindo as sobras da ceia de Natal, pensando em sexo e querendo que ninguém imite sua loucura particular que há tempos não entra em cena.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2009
Dias de Maioridade
Se cheguei até aqui, devo pois comemorar. Render-me ao samba que a vida propaga. Deixar o meu corpo cair de bamba no gingado do ar.
Anunciem aos cantos a minha passagem. Joguem luz na entrada desse ciclo. Celebro dias de maioridade, os primeiros. E se por um acaso subirem ao Morro, incluam os meus caminhos em suas preces à Conceição.
8 de Dezembro. Uma película que se projeta na frente dos meus olhos. Respiro alegria. Agradeço aos céus a oportunidade de confirmar a vida.
Agora estou adulto para o mundo, mesmo que o tenha sido sem nomeações por inúmeras vezes abaixo dos Dezoito. Sinto um frio no dorso ao pensar nos dias que virão ao mesmo tempo em que alcanço mais um digno passo na pirâmide de vidro que desenhei aos 7. Maioridade é mais um título que inventam. Mas, já que não tive uma oportunidade clara de apresentar-me como criança ou jovem, permita-me que me coloque como Adulto.
Prazer, sou um adulto que vive um mundo mágico no banheiro. Sou um adulto errante que andarilha introspectivo pelas ruas da cidade. Sou um adulto que vez ou outra se levanta na madrugada e vai dormir na cama dos pais. Sou um adulto que cultiva solenemente a nostalgia. Sou um adulto de alterações sentimentais, um adulto que talvez não cruzará com o aspecto linear, graças aos céus! Resumindo, sou um adulto que habita o território da melancolia, mas que ama viver, ama tagarelar e gargalhar no dia-a-dia. Se continuar essa apresentação, acabarei me limitando aos seus olhos e aos meus, pois há inúmeras coisas que ainda não sei sobre mim, mas o que conheço é sólido. Firme que nem minha personalidade.
À medida em que vou cruzando os degraus da pirâmide de vidro, minha pele vai ficando mais apta, vai adquirindo força. É nítido que os termos que irei adquirindo nem trarão tanta diferença. Nesses primeiros dias como Adulto, sou o mesmo jovem, o mesmo Menino. Não o mesmo, melhor dizendo, sou Renovado e assim continuarei.
Não vou separar os argumentos que estão nas minhas mãos espalmadas dos empecilhos nas solas dos pés. Não irei esquivar o doce labor que poderei sentir num passo, do amargo tédio que poderei encontrar no outro. Quero ter a graça de fazer da minha voz, do meu olhar, do meu corpo, da minha mente instrumentos de Luz, de Sensibilidade e de Arte. Necessito criar os meus compassos. Ser um agente pela Arte.
Há uma grande estrada a ser escrita, seja minha vida curta ou longa, vejo que a estrada é grande. Há incontáveis almas a serem lidas e reproduzidas.
Acolham-me, então, nessa nova fase do ciclo. Abram a roda, aumentem o volume da música e arriscarei alguns passos bambas nesse samba melódico, batucado pela vida.
Anunciem aos cantos a minha passagem. Joguem luz na entrada desse ciclo. Celebro dias de maioridade, os primeiros. E se por um acaso subirem ao Morro, incluam os meus caminhos em suas preces à Conceição.
8 de Dezembro. Uma película que se projeta na frente dos meus olhos. Respiro alegria. Agradeço aos céus a oportunidade de confirmar a vida.
Agora estou adulto para o mundo, mesmo que o tenha sido sem nomeações por inúmeras vezes abaixo dos Dezoito. Sinto um frio no dorso ao pensar nos dias que virão ao mesmo tempo em que alcanço mais um digno passo na pirâmide de vidro que desenhei aos 7. Maioridade é mais um título que inventam. Mas, já que não tive uma oportunidade clara de apresentar-me como criança ou jovem, permita-me que me coloque como Adulto.
Prazer, sou um adulto que vive um mundo mágico no banheiro. Sou um adulto errante que andarilha introspectivo pelas ruas da cidade. Sou um adulto que vez ou outra se levanta na madrugada e vai dormir na cama dos pais. Sou um adulto que cultiva solenemente a nostalgia. Sou um adulto de alterações sentimentais, um adulto que talvez não cruzará com o aspecto linear, graças aos céus! Resumindo, sou um adulto que habita o território da melancolia, mas que ama viver, ama tagarelar e gargalhar no dia-a-dia. Se continuar essa apresentação, acabarei me limitando aos seus olhos e aos meus, pois há inúmeras coisas que ainda não sei sobre mim, mas o que conheço é sólido. Firme que nem minha personalidade.
À medida em que vou cruzando os degraus da pirâmide de vidro, minha pele vai ficando mais apta, vai adquirindo força. É nítido que os termos que irei adquirindo nem trarão tanta diferença. Nesses primeiros dias como Adulto, sou o mesmo jovem, o mesmo Menino. Não o mesmo, melhor dizendo, sou Renovado e assim continuarei.
Não vou separar os argumentos que estão nas minhas mãos espalmadas dos empecilhos nas solas dos pés. Não irei esquivar o doce labor que poderei sentir num passo, do amargo tédio que poderei encontrar no outro. Quero ter a graça de fazer da minha voz, do meu olhar, do meu corpo, da minha mente instrumentos de Luz, de Sensibilidade e de Arte. Necessito criar os meus compassos. Ser um agente pela Arte.
Há uma grande estrada a ser escrita, seja minha vida curta ou longa, vejo que a estrada é grande. Há incontáveis almas a serem lidas e reproduzidas.
Acolham-me, então, nessa nova fase do ciclo. Abram a roda, aumentem o volume da música e arriscarei alguns passos bambas nesse samba melódico, batucado pela vida.
Canto de Atores-Lavadeiras
Lava a Alma
Que a Alma é mais suja que a Carne.
Lava a Alma
E purifica alguma parte.
Que a Alma é mais suja que a Carne.
Lava a Alma
E purifica alguma parte.
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