quinta-feira, 23 de abril de 2009

Hábito

Antes, nunca me sentia tão agradável ou tão feliz ao andar de ônibus. Hoje, é nele que executo uma de minhas atividades prediletas. Não pegando a Avenida Agamenon Magalhães, hoje, quase sempre se torna prazeroso estar num coletivo.
Permeio os meus olhos quase ébrios desmistificando aqueles traços desconhecidos, aquelas vidas interligadas por alguns minutos e freadas. É bom estar sentado e escrevendo sem papel. Os desvios dos meus olhos vão paulatinamente criando essas dúzias de frases. Gosto de sentar nos fundos. Atrás se tem uma visão privilegiada. É inevitável, mesmo de forma não intencional já me virou um hábito ficar reparando tudo o que ocorre com o comportamento humano dentro de tal veículo. Trata-se de uma verdadeira passarela da vida.
E se tem uma coisa que me deixa um tanto inquieto e sempre me faz sorrir é a satisfação enorme que algumas pessoas têm ao adentrar no ônibus. Sentem orgulho ao passar pela catraca e só fecham o riso ao sentar. Talvez seja mesmo um ato vibrante esse, de sair de casa e ir à busca da luta diária, com bravura.
Pois bem, fato é que numa quarta-feira de março, enfrentei uma fila curta na integração e panhei um daqueles longos articulados. Barro-Macaxeira (via Várzea), um dos mais famosos entre os não possuidores de carro aqui na região metropolitana. Estava bem misto. Estou me referindo aos passageiros. É que tem dias que protestantes ou enfermeiros ou patricinhas suburbanas meio que dominam a visão. Naquele dia estava tudo bem equilibrado. Tinha pra todos os tamanhos, estilos, níveis. Como de praxe fiquei na última cadeira central. Duas cadeiras antes de mim, no lado esquerdo, havia um senhor de terno e havaianas verdes. Achei interessantíssimo o estilo dele. Ele virava o jornal de forma ríspida, nitidamente incomodado com a lamentável repetição de notícias. Ao meu lado sentou-se uma velhinha formidável. De uma elegância primorosa, dessas que deve se emperiquitar pra ir à padaria, por exemplo. Num dado instante, após detalhar bem todo o seu perfil, observando suas inúmeras bijuterias, perguntei-a se era possível me informar a hora. Ela imediatamente disse que não. Meio que fiquei constrangido, mas ela de forma doce e tocando com prazer no seu relógio dourado me explicou que ele não funcionava há algum período, que tinha de trocar a bateria. Agradeci de qualquer forma. Depois me agoniava a forma como ela puxava sua seda lilás cobrindo os dedos. Num dado instante ela explicitou: - As coisas hoje em dia são outras. Acompanhei o seu olhar e avistei duas meninas com maquiagem pesada, gravata e de mãos unidas. Surpreendentemente, percebi que no rosto da idosa não se fazia um ar de reprovação.
Já na metade de meu percurso se aproximou um garoto franzino, negro, de olhos graúdos. Devia ter uns 12 ou 13 anos. Ele se pôs no meio do ônibus, bem no local onde fica uma espécie de mola elástica. Estava vestindo uma camisa suja que era de algum programa educacional do governo, segurava uma bíblia de bolso na mão direita e estava descalço. Num impulso ele começou a desafinadamente entoar os hits evangélicos atuais. Eram lindas letras. Confesso que se tem uma coisa que não suporto é estar no ônibus e alguém estar pregando lições de vida, rezando padres-nossos e ave-marias, lendo passagens bíblicas e etc. Não tenho nada contra a manifestação religiosa, mas é que a maioria deles acha que detém a verdade e se empolgam ao ponto de quase gritar. Aquele garoto era diferente, ele tinha um brilho nos olhos. Mesmo com os pés descalços, tinha uma dignidade perceptível. Ele não apenas entoava aqueles louvores como muitos fazem, ele acreditava em cada ponto das músicas. E não estou dizendo que tinha uma fé abaladora, não. É que ele sentia felicidade naquele ofício. Não falava nem pedia nada a ninguém, somente continuava entoando sílabas dentre lombadas e curvas. E todos o davam atenção. “O Monólogo do Oprimido”, e era uma atuação esplêndida. Foi então que chegou o meu ponto de descida. Ele me acompanhou com os olhos. Antes de mim, estavam prontas para descer as meninas de gravata, e ele não as olhou em nenhum momento com um ar de indiferença, mesmo vendo a nítida expressão do amor entre elas, é como se ele fosse uma curta representação do Cristo, aquele que vivia dentre o povo, que não julgava que amava incondicionalmente. Fez-me lembrar alguma passagem onde Jesus filosofou alertando aos seguidores que tivessem negligência ao encaminhar a crença e as palavras, pois até as prostitutas poderiam ser as primeiras a estarem na entrada do reino. Assim, o motorista parou e cumprimentei o garoto com um leve adeus nas mãos, ele respondeu com um sorriso nos lábios continuando a cantoria.
Desci daquele ônibus diferente, tinha aprendido algo novo que até dado momento não sei nomear, e creio que não seja preciso querer intitular. É que aquele garoto, o qual nem me recordo plenamente os seus traços, me encheu de luz. Ele conseguiu tocar num ponto vulnerável, me fez enxergar a plenitude que há na desigualdade que caracteriza o nosso cotidiano.

O Sr Fernando e o Jovem dos Bótons Coloridos

Não lembro ao certo em que data ocorreu aquele encontro da vida. Sei que foi em alguma noite de Janeiro ou Fevereiro, numa sexta ou num sábado. O que importa mesmo destrinchar é como se deu essa curta memória.
Tinha deixado a Rua da Moeda e estava partindo para a Avenida Guararapes afim de panhar o meu busão e ir sorrindo pra casa. Andava rápido. Não se pode dar bobeira nas pontes do Recife Antigo de dia, que dirá pela noite. É lamentável, mas já se anda demasiadamente assustado num lugar tão belo como aquele. O fato é que um senhor viu aquela agonia e disse-me de supetão: essa hora, não é brinquedo não, né?! –É sim, não é mesmo! , respondi um tanto desconcertado.
-Atravessemos juntos, então, pois assim o perigo diminui. Respondi que sim com a cabeça. O velhinho (nem tão velho assim) com características tipicamente boêmias me perguntou até que ponto iria.
-Irei pegar ônibus com sentido para Água-Fria. Então, ele disse que pegaria praticamente em meu mesmo ponto. –Moro na Encruzilhada, disse ele. Depois, passado o término da ponte ele conversou sobre a movimentação do antigo. –Você bebe jovem?! –Digamos que sim, digamos que às vezes devo exagerar, mas é que o vinho já me dominou. –Já se que você deve beber desses baratinhos que fodem o fígado, estou certo?! –Sim, as coisas mais surradas às vezes são mais saborosas, respondi-lhe com um sorriso bobo. –Coisas da juventude. Tudo que é mais perigoso estimula mais. Foi então que o Senhor me fez um convite: ainda são 22h, não quero ir agora, você se incomodaria de dividir tal vinho comigo?!
Recusei de imediato. Aquele velhinho era meio estranho. Ficar perguntando coisas assim a um garoto que nem conhece e já o chamando pra tomar uma, boa coisa não deve ser. E se ele for um traficante de órgãos?! Vai me atrair pra sua gangue e já era uma vez minha vida. Eram pensamentos como esses que passavam rapidamente pela minha mente.
O velhinho insistiu, e percebi em seu olhar um pingo de solidão, uma inocência de quem quer só dividir uns leros. Não resisti e segui com ele, um tanto desconfiado e assustado.
- O que são esses negócios coloridos? –São bótons, respondi. Bótons de duas bandas de rock, Rolling Stones e Nirvana. –Os Stones são legais, mas sempre preferi Ramones e Sex Pistols, respondeu ele coçando levemente a cabeça.
Chegamos próximo ao Pátio de São Pedro. A rua estava movimentada, qualquer coisa poderia pedir socorro, pensava sorrindo bruscamente.
-Vem cá, qual o nome do senhor?! –Senhor ta lá em cima, e é Fernando. E o seu, rockerinho de prédio?! –Elilson, respondi um tanto tímido. –Eli, o quê?! Elilson! E moro em subúrbio mesmo, e numa casa, respondi com leve chateação em relação à piadinha que fez ao meu estilo.
Ele me partilhou suas memórias. Disse-me que era de Natal, mas que desde a juventude tem uma paixão enorme por Recife. Contou-me de seus filhos, de suas mulheres, de como o mundo era e está. Ouvia tudo calado, não partilhava informações sobre mim, apenas concordava ou não com as coisas que ele dizia e vez ou outra, sob um impulso maior jogava-lhe manias e planos. Parecia um avô ensinando um neto a como decifrar o desencadeamento do viver. Nunca tive esse contato com algum avô, esse tipo de interação. Batia em mim uma nostalgia de algo que estava preso, mas que nunca tinha sentido. Empolgado, o fiz perguntas sobre como era o seu comportamento na época da ditadura. –Aquilo era um tempo medíocre, sórdido, mas dava, com cautela, pra fazer tudo que vocês fazem. O que mudou foram os hábitos, as maneiras, os trejeitos, mas não existe nada de tão novo assim. Disse ele sem querer se prolongar no assunto. Percebi um semblante espaçado naquela alma jovem em matéria velha, mas ele logo retornou à normalidade. Ainda ousei em pergunta-lhe se já havia usado drogas. –Claro. Respondeu ele. E continuou: --Mas saiba de algo, jovem, se eu morresse hoje, estaria feliz. Sim, pois fiz tudo no tempo certo. Algumas coisas um tanto tortas, como experimentar drogas, mas é necessário ás vezes pra crescer, contudo fiz tudo no tempo certo. Eu vivi minha vida passo a passo. Vocês parecem querer hoje adiantar o tempo, fazem coisas desenfreadas, querem tomar como modelo pessoas doidas como tal de Amy House. Sim, às vezes é bom pular etapas, mas o melhor é se tornar livre de maneira sensata.
Atentamente, meus olhos liam aquelas informações. Rindo, contei-lhe que era fã da tal Amy, explicando-lhe seu nome correto: - é Winehouse, disse a ele.
-Uma porra dessas aí mesmo. Soltou-o. Depois da garrafa de vinho terminada, olhei à hora e me levantei. O Sr Fernando ainda queria prolongar, mas recusei. No caminho até a parada, ele, parecendo ler algo que havia dentro de mim, disse repentinamente que achava que todos devem ser felizes do jeito que são. Disse-me sorrindo que nascer já é algo difícil de entender, quanto mais querer viver de acordo com o que os outros pensam.
-Foi um prazer, disse ele. O respondi com um aperto de mão. Ele pediu que colocasse meu número em seu celular, pois não sabia usá-lo. Não sei por qual motivo, mas não coloquei o meu número. Tinha sido uma experiência única, e era ali que queria deixá-la, sem prolongamento, apenas um capítulo interessante, diferente na minha caminhada.
Assim, o jovem Sr entrou em seu ônibus. Esperei o meu por mais alguns minutos ainda um tanto perplexo com aquele episódio. “Que pessoa louca pára pra conversar desse jeito com um desconhecido?”, ficava pensando. Num mundo tão caótico e dominado pelo medo, a maioria das pessoas perdeu esse prazer, essa troca de vida com alguém que não se conhece. Parecia mais que aquele velho era um vizinho que tinha partido pra longe, um tio que voltou no tempo ou mesmo um amigo da pré-escola que esbarrara sem querer vindo rapidamente a me reconhecer. Ele me ensinou algo que vai além dessas palavras repetidas, em mais ou menos uma hora, aquele homem de barba feita e camisa verde com botões, de sapato branco e calça social, de olhar firme e pronúncias desvairadas me instigou vida!

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Remix Multicultural ou Memórias de mais um Carnaval

Marchinhas soltas com verdade transbordante.
Cruzamento místico em vontade delirante.
Salada bela de peles diferentes.
Multi cultural se revela uma palavra ardente.
Liberdade,
beijo triplo,
uno,
igualdade
momentânea,
frase pronta,
descentralizados, marco zero, bom jesus,
13 de maio, quanta ladeira (!)...
Dilma, Winehouse, Lula, Obama, Lindu, Gal Costa e Bethania
viram personagens do escracho doce.
Maria Rita, Pitty, Elba, China, Manchete Sílvia, Madeiras que Cupim não rói.
Enéas Freire, Capiba estão logo ali.
Mas eita! Êta, êta, êta, êta. É a luz é o som. É uma verdadeira diva de calças.
Caboclo, máscaras, lança. Frevo, maracatu, alfaias e tamborim.
Galo d'água. Galinha da Madrugada.
Maconha, sucesso, cana com mel.
Rua da Moeda e 4 cantos.
Tequila, ice e pó, Fábio Assunção é nosso irmão.
Psicodélico moderno, atualidade antiquada, vanguarda destemida.
"Aqui todo mundo brinca".
Propaganda em acúmulo. Versatilidade em desuso?!
Buceta, cou, caralho, porra, no palco e nas vielas pode se falar, pode se ver tudo.
Rock, pop, jazz, eletrônica.
Camisinha solta no ar.
Em nove meses um preço a pagar?
Mandacaru com caipirinha.
Feijão, arroz e vinho tinto.
Sombrinhas, tesouradas e plim-plim! Olha a Globo aí, gente!
Band folia, Eduardo tão simpático, Costa Filho tão orgulhoso.
Cadê Cadoca? Tentativa falida de imitar Salvador, graças a Deus!
750 mil. São turistas que gozam de um carnaval que é do povo.
Mas, nas esquinas se vêem os excluídos recolhendo as sobras, desejando as migalhas.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Singularidade Feminina.

"Este é um mundo masculino! Mas, ele não seria nada sem as mulheres"
Se olharmos para a história de nossas civilizações, vemos claramente o quanto elas, seja através de atos sensíveis ou mais fortes, pela atuação política ou mesmo pela expressão da sexualidade, sempre foram essenciais para as evoluções e transcedência em que o mundo sempre permeou.
Destemidas por natureza, os seres que concebem o mundo, que em verdade dão concebimento à vida, sofreram por um tempo bem longínquo, as tentativas machistas de estarem à margem das decisões, de terem reprimidas suas inquietações, de terem ofuscadas suas vitórias e méritos. Mas sempre existiu, ao menos uma que se manteve na defensiva, que se destacou por tentar mudar os rumos da construção histórica.
São inúmeras raças e culturas. Hábitos e perfis. Ainda hoje, muitas se vêem sujeitas às imposições de culturas em nações religiosamente tradicionais. Outras se vêm sem força ao estar inerente a qualquer tipo de situação em lugares como a África. E a maioria delas ainda tem de engolir seco atrasos sociais, como receber menos pelo mesmo trabalho, ter rótulos de frágil quando não se colocam ou de puta quando usam sua arte ou corpo, quando os homens ao fazerem o mesmo são ovacionados.
O lugar que elas conquistaram é inegável, bem como sua singularidade, essência e beleza nos mais variados e amplos contextos.
Pagu, Judi Denchi, Fernanda Montenegro, Elza Soares, Christina Aguilera, Maria da Penha, Bethânia, Eliane Nascimento*, Daisy Falcão**, Cate Blanchet, Amy Winehouse, Geninha da Rosa Borges, Marisa Monte, Maysa, Edith Piaf, Lispector, Meireles, Adélia Prado, Maria Luiza Duarte***, Heloísa Helena, Dakota Faning, Abgail Breslin, Cláudia Abreu, Kate Winslet, Marion Cotillard, Marina Silva, Dercy Gonçalves, Lays Vanessa'*, Alanis, Roberta Sá, Santa Tereza de Calcutá, Joana Dark, Carla Mirela'**, Dona Ivone Lara, Furacão Elis, Crisitina Rocha'', Kátia Santos'''...são substantivos, são exemplos , são formas variadas, são visões e traços diferentes, são expressão, são arte, são mulheres!
------------------------------------------------------------------
Legenda: Epígrafe, frase da canção "It´s a Man´s, Man´s, Man´s World" do falecido intérprete e compositor, padrinho da Soul Music, James Brown.
*Minha mãe. **, Minha grande amiga, a fim de representar as demais, atriz e professora pernambucana; ***Minha avó, falecida, de quem pego emprestado o sobrenome, mulher que enfrentou a fome e a seca nordestina, mas que sempre lutou pra educar e alimentar seus filhos; '**-Estimada amiga, onde faço representar as demais; '*: sonhadora, cantora, compositora, escritora, atriz e desenhista com quem convivo e '' e ''' são amigas-professoras, a quem faço merecida citação a fim de também representar as demais que com nobreza enfrentam árduo ofício de educar.

Em cima do Muro ( Notas Rápidas)

1) Há não muito tempo, escrevi de forma leve o que penso a respeito do Aborto. Sou contra a sua manifestação, e isso não nego. Sou contra quando me coloco no lugar daquela criança calada, abafada, presa, indefesa. Mas, o Aborto, principalmente num país como o nosso, se torna um problema de ordem sócio-econômica, pois mesmo sendo contra, tenho a consciência do que passam essas mães pobres, essas mulheres da vida humilde, que só pra elas vale e vigora a lei. Dos tantos milhões de abortos cometidos, uma grande parte é cometida por pessoas ricas, que tem dinheiro e status suficientes para ter qualquer grande médico e consultório nas mãos. E para as pessoas pobres, restam métodos medievais, como a cruel utilização de agulhas de croché.
Enfim, não estou querendo reverter a minha visão. Continuo sendo contra o aborto, e nem quero pensar sobre sua legalização, mas em determinados casos, considero a discussão insensata e insensível. Tive uma formação católica por opção, contudo nunca fui de bancar mais uma ovelha dominada, uma mente alienada pelas palavras clérigas ou imposições verbais oriundas do Vaticano. Religião deve ser apenas uma prolongação do dia-a-dia, deve ser uma ambiente onde se busca o elo de harmonia com o que se crê, sempre pensei dessa forma.
Nas últimas semanas, o aborto realizado na menina pernambucana de 9 anos de idade, que no auge da infância, abusada sexualmente pelo padrasto, findou por ficar gestante de duas crianças acabou ganhando uma notoriedade mundial. Assim que li pela primeira vez sobre o caso, concordei de imediato com o provável aborto. Como uma criança vai conceber mais duas em tais condições? E os danos ultra-psicológicos? Será que o corpo dela está pronto para isso? Era um problema a não ser discutido em público, era a dignidade de uma criança, de uma alma inocente sendo exposta.
As palavras do arcebispo da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, foram ásperas e antiquadas como imaginava. Sim, pela lei da igreja ele deve defender a vida em meio público. Concordo quando ele se refere ao aborto como um genocídio silencioso. Todavia, se tratava de uma criança violentada ao extremo. Algo que ultrapassa tradições. E daí declarar que o estupro cometido pelo meliante é um pecado "menos grave" do que o aborto cometido pela equipe médica e permitido pela responsável da menor é um dos maiores disparates do ano em curso. Me dá medo quando as pessoas querem falar por Deus. O que é pecado? Até onde as coisas estão certas ou erradas?
Só queria que ao "expulsar" alguém dos sacramentos e ministérios católicos, o velho bispo viesse a lembrar de que dentre seus mais elitizados membros e fiéis, estão mulheres que também cometem aborto às escondidas, e não por condições extremas como a pobre menina, mas por um capricho qualquer. E mais, gostaria que ele e os outros representantes de Deus( o que não quer dizer o próprio Deus ou a voz de Deus) pensassem que as pessoas buscam na igreja um local de amor, perdão e misericórdia, e não de condenações, penitência e intolerância.

2) Lembro-me perfeitamente da repugnância que tive naquela campanha eleitoral. Era 2006, tinha 14 anos, e só viria a votar em 2008, aos 16. Resido em comunidade humilde, e desde criança observava a infame tática dos políticos de saírem com sorrisos amarelos caminhando nos morros no período pré-eleitoral. É ridícula a ignorância das pessoas que ainda abrem suas portas com felicidade, e fazem questão de serem modelos gratuitos em campanhas televisivas, para demonstrar a "benevolência e disposição em estar perto do povo" que têm essa maioria politiqueira, que são verdadeiros palhaços-de-terno.
Pois bem, o fato é que um político naquela campanha de 2006 foi apertar minha mão. Pelo que me lembro só estava a apoiar um de seus pupilos de coligação. Não tenho ou tinha nada de pessoal contra tal homem, e até desconheço algum passado sujo além de erros previsíveis a quem se põe a governar uma sociedade tão conturbada. Sendo equivocado ou estúpido, só lembro bem daquele sorriso bobo vindo em minha direção. Acabar de chegar no portão de minha casa e queria apenas entrar, fugir daquela agitação. Foi então que um certo Jarbas Vasconcelos veio apertar minha mão, e logo viu que a mesma estava com o papel da campanha do tal do "Mendonçinha" amassado feito lixo, e sendo justo ou não, como um ato de protesto simplesmente não fui educado, não abri minha mão, e ele se foi em meio a pessoas, flashes e seguranças.
Mas, uma certa entrevista à Veja, chamou a atenção do país nas últimas semanas. Sim, Jarbas Vasconcelos, um Pemedebista aparentemente tradicional, que já tinha exposto suas visões acerca de nossa política suja em outros tempos, é bem verdade, mas dessa vez ele ultrapassou as expectativas, se arriscando à esquerda e se pondo a denunciar seu próprio partido. E pudemos ver até penas de Tucanos e estrelinhas vermelhas apagadas sendo soltas ao vento, feito poeira de lixo!
Depois, num pronunciamento destemido, feito um Leão do Norte, no Senado cheio, com repórteres, inimigos políticos de outros partidos e os seus "irmãos-obscuros" olhando pra ele, Jarbas se colocou a repetir tudo que disse na polêmica entrevista e a sugerir medidas ao governo Lula, que "aceita e condiz com toda a corrupção".
Não sei ao certo se as intenções dele são apenas em zelar pela honestidade e empenho em governar que foram jogados nos buracos brasilienses nas últimas decádas ou se existe as famigeradas particularidades políticas, mas o fato é que mesmo tendo sido uma atitude tardia(e muito tardia!) Jarbas faz com que levemente retirasse o meu chapéu para sua figura. Quem sabe Lula ainda me faz querer tirar o chapéu também um dia, nem que seja por efêmeros e cuidadosos segundos feito fiz para com o Seu Vasconcelos.

terça-feira, 3 de março de 2009

Pele de Dália

As baladas em sinfonia rockeira parecem delinear acerca de meus traços recentes.
É carnaval, é alegria e saudade, e apenas te toco com o olhar, te olho com desejo.
Queria que os seus braços ultrapassassem os limites da amizade, e estivessem aqui, comigo, por todas as chuvas que encontrássemos.
Enorme alívio minha alma sente ao estar perto de ti. Balbucio tua pele de dália sem malícia, talvez nem tão respeituoso, mas com um pouco da inocência que me sobra.
Para você, aparenta ser só mais um capricho, uma pirraça dessa figura antipática que quer te deixar com pensares confusos, te deixar sem saber quando é brincadeira e quando se torna sério, quando é verdadeiro, e quando começa a ficar dúbio.
Tua voz é tão doce em meus ouvidos. Mas, isso não é uma declaração de amor. Não, não é. Não sei que dimensão de amor pode ter alguém que ainda nem responde por seus atos.
É bem provável que seja paixão. E paixão é pra ser vivida no agora. Sem planos sólidos, sem quantidade exata. O amor tem gigantes dimensões. É pra vida toda. E nós gozamos da mais bela manifestação do amor, a amizade. Mas paixão, ora, paixão pra se concretizar agora, depende da vontade de dois. Se torna extremamente necessário que dois mergulhem numa harmonia que pode durar cinco minutos ou um quarto de vida.
Aí se encontra a pequena problemática platônica. Apenas um quer se jogar no jardim de infância, andar de mãos unidas sob os relâmpagos, correr nas calçadas, lamber o ar pelas ruas e respirar novos rumos de maturidade. Assim, o desejo se torna ilusão.
Nunca desejei um sim por piedade. É claro que receio o que pode mudar depois que amigos encostam suas línguas. Dane-se! Para quê ficar nesse raciocínio?! Tudo flui de maneira tão rápida, áspera, azeda, por culpa de não termos a mente voltada ao que se procede agora.
Engraçado, você me faz ser puro e clichê ao mesmo tempo. Não tenho certeza de nada, apenas queria me lançar sem medo. E por mais que seja difícil engolir respostas contrárias, gosto da tua verdade. É que, em certos momentos, o tempo me faz crê que talvez fosse você parte da calmaria que anseio, que com você poderia firmar oaristos no escuro e no claro. Você mais parece uma pintura bucólica que quer me fazer fugir da agitação e me render ao verde.
Sou grato pela gratuidade de tua amizade, e mesmo que não seja com frequencia, as horas que te vejo são excitantes, e não assoberbadas como de hábito. Pois, entrelaçado ou de mãos livres, sua presença tem sido um capítulo doce nessa jornada que só está no início.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Notas de Melancolia

A noite me faz um pedido por luz. As sombras do telhado me gritam por luz. É madrugada, o dia foi cansativo, mas me viro e reviro entre os lençóis e a insonia que um dia fora amiga, quer me jogar no ócio, na melancolia, contudo isso deve fazer parte de mim.
Sento-me de supetão e fico falando coisas no ar. Sem sons, só gesticulação. É minha estranha loucura de interpretar a vida, de buscar respostas sozinho.
Os outros acham que é fácil engolir as trevas só por que joguei um ou dois risos bobos. São tantos personagens confusos, o enredo em si é tão confuso, que tem minutos em que só quero silenciar. Mas, essa calmaria suave não caracteriza o meu espírito.
Às vezes queria ir até o lamento das ruas do Antigo e beber, beber feito Piaf, Dean, Brown ou Maysa, mas é logo que prefiro me entorpecer na calada da solidão, olhando o céu, e me pondo de frente ao espelho pra tentar retocar minha alma.
É um ano de decisões. Peço diariamente a Deus misericórdia e perdão, pra continuar plenamente, pra não ter colocado as coisas na beira do abismo.
São tapas que o escuro me dar, e parece mais que eu gosto de apanhar na surdina do sofrimento. Mas, eu corro, gargalho e peregrino dentro de meu mundo calculadamente resumido e viajo em visões de triunfo, de futuro, de vitória em guerra.
Acredito que agora não sei mais o que quero, quem quero. Agora sou vilão, fui vilão. Um vilão frágil, que tormenta a si próprio, que pode ser "sexy, azedo e doce", que pode cantarolar no tabuleiro das ilusões, ou arriscar passos no resplandecer dos desafinados.
E eles e elas vêm como onda em meus pensamentos. São muitos caminhos traçados. Limpos e sórdidos. São vidas entranhadas, soltas e presas numa teia, teceladas e queimadas numa rede qualquer. Temo surtar, porém sei que isso não ocorrerá. Os fantasmas da voz, os anjos do escuro me dão essa certeza vital.
Não sei se mereço, só sei que queria ter agora em mãos um piano. E que numa mágica inefável começasse a compor essa melancolia que reclusa e liberta, que repudia e fortalece, pois tudo parece ser dúbio, e ser feliz em suma parece nunca ser algo precisamente justo.
Trata-se de notas inéditas e repetidas. Dó, ré, mi, fá, sol, lá, sí, tudo é melancolia, tudo é ambíguo, tudo também é vida.