A noite me faz um pedido por luz. As sombras do telhado me gritam por luz. É madrugada, o dia foi cansativo, mas me viro e reviro entre os lençóis e a insonia que um dia fora amiga, quer me jogar no ócio, na melancolia, contudo isso deve fazer parte de mim.
Sento-me de supetão e fico falando coisas no ar. Sem sons, só gesticulação. É minha estranha loucura de interpretar a vida, de buscar respostas sozinho.
Os outros acham que é fácil engolir as trevas só por que joguei um ou dois risos bobos. São tantos personagens confusos, o enredo em si é tão confuso, que tem minutos em que só quero silenciar. Mas, essa calmaria suave não caracteriza o meu espírito.
Às vezes queria ir até o lamento das ruas do Antigo e beber, beber feito Piaf, Dean, Brown ou Maysa, mas é logo que prefiro me entorpecer na calada da solidão, olhando o céu, e me pondo de frente ao espelho pra tentar retocar minha alma.
É um ano de decisões. Peço diariamente a Deus misericórdia e perdão, pra continuar plenamente, pra não ter colocado as coisas na beira do abismo.
São tapas que o escuro me dar, e parece mais que eu gosto de apanhar na surdina do sofrimento. Mas, eu corro, gargalho e peregrino dentro de meu mundo calculadamente resumido e viajo em visões de triunfo, de futuro, de vitória em guerra.
Acredito que agora não sei mais o que quero, quem quero. Agora sou vilão, fui vilão. Um vilão frágil, que tormenta a si próprio, que pode ser "sexy, azedo e doce", que pode cantarolar no tabuleiro das ilusões, ou arriscar passos no resplandecer dos desafinados.
E eles e elas vêm como onda em meus pensamentos. São muitos caminhos traçados. Limpos e sórdidos. São vidas entranhadas, soltas e presas numa teia, teceladas e queimadas numa rede qualquer. Temo surtar, porém sei que isso não ocorrerá. Os fantasmas da voz, os anjos do escuro me dão essa certeza vital.
Não sei se mereço, só sei que queria ter agora em mãos um piano. E que numa mágica inefável começasse a compor essa melancolia que reclusa e liberta, que repudia e fortalece, pois tudo parece ser dúbio, e ser feliz em suma parece nunca ser algo precisamente justo.
Trata-se de notas inéditas e repetidas. Dó, ré, mi, fá, sol, lá, sí, tudo é melancolia, tudo é ambíguo, tudo também é vida.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Paixão de Janeiro

Quem será você, efêmera onda de beijos, de palavras e de olhares, que me deixou na ânsia do amor?!
Saiba que és alusão das minhas letras, lágrimas que minha ponte fabrica ao ouvir as músicas correlatas. É o desconforto do abraço rápido. O brilho nos olhos ao relembrar Janeiro. És o medo de não esquecer.
Me pergunto o que pode haver de errado. Nada é culpa sua, e você nem se quer percebe tal aflição. Mas, por que hei de ainda sentir algo que dilacera?!
Não era pra ter tamanho significado. É ilógico. Mas, sinto e só. Não sei o que quero, só sei que sinto.
Sinto o aperto, a nostalgia, a inveja inocente, o afastamento, o aperto ao relembrar o que poderia ter continuidade. Mergulhei de cabeça em teus beijos. És o princípio ou foi princípio?!
O fim foi declarado por mim, mas existe fim? E por que tais batimentos não cessam?
Andei te procurando em tudo. Nos rostos, nas chuvas, nos beijos em minha pele marcada. Mas, não passastes de umas poucas reflexões inspiradas. Até que pude ver nossos caminhos completamente separados, esquivados, apagados.
Por qual motivo não consigo te delatar de minhas linhas construídas com lamento?
sexta-feira, 26 de dezembro de 2008
Silenciar
Apenas converso sozinho, pois o silêncio me ouve melhor, me ensina mais, me faz sentir forte e suaviza o que vai além de minhas paredes.
Isso não é coisa nova. Desde criança que os meus lábios batem instantaneamente. As paredes sempre me responderam com afeto.
Dizem que cada um tem a sua estimável loucura, só tenho a vontade de fazer arte enquanto estou isolado. Minha mente vai no passado e volta no futuro. Crio cenas, vejo letras, observo matérias que podem ser feitas por mim ou pelos que estão em torno.
Os meus dedos pincelam sonhos nos ventos, minhas lágrimas enfeitam as marcas que minha pele já carrega.
Talvez esteja destinado a sempre escrever. Fazer barulho na surdina do vento. Tenho me afastado de holofotes sem perceber.
Há pouco ainda enfrentava inúmeras expressões faciais com um microfone bem posto nas mãos como se estivesse num ofício sem igual. Era uma liderança boa de se cumprir, mas com o tempo me trouxe cansaço e comecei a inesperadamente ter fobia ao público.
Contudo o silêncio amigo, assistido pelo retorno ao teatro, me provou que foi mais uma fase. Eram muitas coisas acontecendo. Mudanças imediatas, imagens desfocadas.
Mas, quando vejo e repenso acerca de tudo que aconteceu nesses mais de 360 dias, me vem uma vontade louca de gritar, clamar justiça, desembocar o ódio pela nossa passividade. E tudo parece só mais um "Extra-Extra" proclamado por algum mudo, pois tudo se repete. Alguns episódios levam destaque, seja pela perplexidade, ou pela serenidade que venham a causar, mas é uma continuidade de fatos que não atingem a ação da massa.
E assim se aproximam outros dias, meses, mais um ano. Alguns esperam o fim, outros nada aguardam. Em meio a tanta crueldade, fome, inflação, politicagem nas três Américas, e o eterno natalismo* num mês que vem trazer reflexão inspiradora em final de ciclo, somente desejo fazer arte, tocar pessoas, caminhar firme e silenciar. Silenciar como as plantas. Talvez o mundo precise disso: silenciar. Atrair a calmaria, a concórdia e a harmonia, pois no natal ou em Carnaval, a esperança de melhores horas e de tempos menos sombrios revive igual tradição milenar, é surpreendentemente intacta.
*Neologismo, feito por mim na crônica de mesmo nome postada aqui um ano atrás. Combinação entre os termos "natal" e "capitalismo".
Isso não é coisa nova. Desde criança que os meus lábios batem instantaneamente. As paredes sempre me responderam com afeto.
Dizem que cada um tem a sua estimável loucura, só tenho a vontade de fazer arte enquanto estou isolado. Minha mente vai no passado e volta no futuro. Crio cenas, vejo letras, observo matérias que podem ser feitas por mim ou pelos que estão em torno.
Os meus dedos pincelam sonhos nos ventos, minhas lágrimas enfeitam as marcas que minha pele já carrega.
Talvez esteja destinado a sempre escrever. Fazer barulho na surdina do vento. Tenho me afastado de holofotes sem perceber.
Há pouco ainda enfrentava inúmeras expressões faciais com um microfone bem posto nas mãos como se estivesse num ofício sem igual. Era uma liderança boa de se cumprir, mas com o tempo me trouxe cansaço e comecei a inesperadamente ter fobia ao público.
Contudo o silêncio amigo, assistido pelo retorno ao teatro, me provou que foi mais uma fase. Eram muitas coisas acontecendo. Mudanças imediatas, imagens desfocadas.
Mas, quando vejo e repenso acerca de tudo que aconteceu nesses mais de 360 dias, me vem uma vontade louca de gritar, clamar justiça, desembocar o ódio pela nossa passividade. E tudo parece só mais um "Extra-Extra" proclamado por algum mudo, pois tudo se repete. Alguns episódios levam destaque, seja pela perplexidade, ou pela serenidade que venham a causar, mas é uma continuidade de fatos que não atingem a ação da massa.
E assim se aproximam outros dias, meses, mais um ano. Alguns esperam o fim, outros nada aguardam. Em meio a tanta crueldade, fome, inflação, politicagem nas três Américas, e o eterno natalismo* num mês que vem trazer reflexão inspiradora em final de ciclo, somente desejo fazer arte, tocar pessoas, caminhar firme e silenciar. Silenciar como as plantas. Talvez o mundo precise disso: silenciar. Atrair a calmaria, a concórdia e a harmonia, pois no natal ou em Carnaval, a esperança de melhores horas e de tempos menos sombrios revive igual tradição milenar, é surpreendentemente intacta.
*Neologismo, feito por mim na crônica de mesmo nome postada aqui um ano atrás. Combinação entre os termos "natal" e "capitalismo".
domingo, 14 de dezembro de 2008
Monólogo da Saudade
Tudo tá confuso? Tudo está prestes a explodir?
Fui eu quem viu a vespa morrer na florescente. Sozinhos meus olhos se fizeram estátuas. Suas asinhas descoloridas tocavam na luz, ela trucidava-se no calor.
E eu? Eu estava na parede ao canto, lembrando do amor efêmero, dos que se foram sem meu adeus, do dia em que ali naquele mesmo canto o álcool do perfume bateu nas minhas amígdalas secas, quando a velha e áspera faca mostrou meu reflexo agoniado.
O que me falta? -Nada! Gritaram os fantasmas da voz. São apenas os medos,angústias e aflições.
Escondo meu crânio em baixo do travesseiro e realizo minhas preces. Tenho confiança em Deus. O sorriso de minha pequena, os olhares de meus pais, as falas de meus irmãos e os ombros dos amigos com o colo de amor me trazem sossego.
Me sento e destrincho as minhas memórias. Das conversas com as plantas e vidraças nunca quebradas, das paixões de juventude à solitude no banheiro, da coreografia como anjo em pastoril aos aplausos e ignoradas nos remotos episódios gremistas, das torturas no escuro até a arrogância sentinela, dos vôos na lama, rua, alcova e nuvens à austera solidão, dos momentos rebeldes às alegrias das vitórias.
Foi então que lembrei do dia em que deixei a morte acontecer. Iria para aquele ônibus de todo jeito, mas só tomei ação quando já fora tardia: o cãozinho já estava esmagado. Tinha 11 anos, mas ele não teve nem 11 dias. Eu podia ao menos desligar a luz, fazer com que a vespa morresse sem calor. Mas, o que sente uma vespa? Faz questão do frio como eu? Sai de um casulo que nem as mariposas?
Há momentos que minhas veias e artérias batem tanto, meu coração lateja tanto, que parece que no "beat" seguinte vai parar. É igual a essas linhas, parece que vou morrer quando der o ponto final. Mas, quem morre é a vespa.
Quero viver. Não anseio pelo "Lago Michigan" e as pronúncias fúnebres de Brecht para com aquela pobre e singela puta. Desejo voar alto, perdoar, respeitar, vencer. Amar sem restrições algébricas, sem gramática perfeita, sem comprovação histórica. Apenas amar, mergulhar no alvorecer de meus sonhos, acender as lamparinas da esperança, afastar a escuridão e ser diferente do que tenho sido.
E assim seguir como vespas e cães vivos: saborear as cores múltiplas fora da norma padrão e contexto inerte, mas viver. Seguir em marcha firme com minha transparência e gana, com meus gostos e repugnâncias, sorrisos e lágrimas, vilões e heróis, dramáticos e cômicos, cronicas e argumentos, pois eu ainda tenho dezessete.
E eu já tenho dezessete.
Fui eu quem viu a vespa morrer na florescente. Sozinhos meus olhos se fizeram estátuas. Suas asinhas descoloridas tocavam na luz, ela trucidava-se no calor.
E eu? Eu estava na parede ao canto, lembrando do amor efêmero, dos que se foram sem meu adeus, do dia em que ali naquele mesmo canto o álcool do perfume bateu nas minhas amígdalas secas, quando a velha e áspera faca mostrou meu reflexo agoniado.
O que me falta? -Nada! Gritaram os fantasmas da voz. São apenas os medos,angústias e aflições.
Escondo meu crânio em baixo do travesseiro e realizo minhas preces. Tenho confiança em Deus. O sorriso de minha pequena, os olhares de meus pais, as falas de meus irmãos e os ombros dos amigos com o colo de amor me trazem sossego.
Me sento e destrincho as minhas memórias. Das conversas com as plantas e vidraças nunca quebradas, das paixões de juventude à solitude no banheiro, da coreografia como anjo em pastoril aos aplausos e ignoradas nos remotos episódios gremistas, das torturas no escuro até a arrogância sentinela, dos vôos na lama, rua, alcova e nuvens à austera solidão, dos momentos rebeldes às alegrias das vitórias.
Foi então que lembrei do dia em que deixei a morte acontecer. Iria para aquele ônibus de todo jeito, mas só tomei ação quando já fora tardia: o cãozinho já estava esmagado. Tinha 11 anos, mas ele não teve nem 11 dias. Eu podia ao menos desligar a luz, fazer com que a vespa morresse sem calor. Mas, o que sente uma vespa? Faz questão do frio como eu? Sai de um casulo que nem as mariposas?
Há momentos que minhas veias e artérias batem tanto, meu coração lateja tanto, que parece que no "beat" seguinte vai parar. É igual a essas linhas, parece que vou morrer quando der o ponto final. Mas, quem morre é a vespa.
Quero viver. Não anseio pelo "Lago Michigan" e as pronúncias fúnebres de Brecht para com aquela pobre e singela puta. Desejo voar alto, perdoar, respeitar, vencer. Amar sem restrições algébricas, sem gramática perfeita, sem comprovação histórica. Apenas amar, mergulhar no alvorecer de meus sonhos, acender as lamparinas da esperança, afastar a escuridão e ser diferente do que tenho sido.
E assim seguir como vespas e cães vivos: saborear as cores múltiplas fora da norma padrão e contexto inerte, mas viver. Seguir em marcha firme com minha transparência e gana, com meus gostos e repugnâncias, sorrisos e lágrimas, vilões e heróis, dramáticos e cômicos, cronicas e argumentos, pois eu ainda tenho dezessete.
E eu já tenho dezessete.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Só mais um Prólogo
Esta sensação dilacera. Às vezes é mais angustiadora que a melancolia da saudade da infância inocente. Não se trata da tamanha dor de quem carrega um peso contra o julgamento quase unânime e sórdido, mas sim do medo de cair, medo de ter perdido o controle das próprias ações, medo de ironias do destino, medo de ter se deixado levar em vão.
Fico deitado no escuro fazendo uma prece e a música consoladorada se propaga nos ambientes em volume máximo.
Adentro numa festa underground e me coloco a buscar a tecelagem de minha teia, descendo e subindo num elevador minúsculo e arcaico, tão velho quanto a dinastia do desprezo, mas que me possibilita encostar minha cabeça em seu ferro gélido e crú para pausar as pertubações da alma. É logo que no segundo pavimento, dou de cara numa convidativa janela. Ali, como numa amplitude teatral, eu olhava paulatinamente a rua das ilusões e suas poças de chuva em seu asfalto histórico. E as árvores aplaudiam minhas lágrimas mornas que surgiam feito ondas de água doce: praticamente imperceptíveis. Era uma enchurrada de gotas presas, ao som de algum seguidor de Mr Presley.
Mas, as árvores deixam de ser platéia, sacudidas pelo ar frio ao tempo que as paredes querem dilacerar minha carne no chão maestroso do Recife Velho.
Contudo, um alguém com aroma de cevada me dá um abraço, e um laço se cria. Não me conhece, não sabe o que pode se passar, mas me dirige palavras que o diabo não pode morder.
E me recordo do dia de sol que andei transtornado entre os corpos e carros da redenção de Santo Amaro, onde os ventos embarcaram meu olhar na parede interna de um simples boteco que trazia o letreiro: "Deus está no comando de tudo".
Caiu como um alívio imediato. Porém é fato que as horas e o despertar de pesadelos incógnitos, retrazem as sensações cruéis branco-e-preto.
Olho ao chão e vejo o cafuso varrer rispidamente a lama que reflete o meu olhar seco, e acabo desejando ser lavado, tocado pela luz desconhecida, criacionista, pelo mar em vida plena.
É na alvorada da lua, com os pássaros gritando piedade, que a eterna luta se segue na marcha solitária e bravante, pois a luta mais árdua é contra si próprio.
02h46 30/11/08.
Fico deitado no escuro fazendo uma prece e a música consoladorada se propaga nos ambientes em volume máximo.
Adentro numa festa underground e me coloco a buscar a tecelagem de minha teia, descendo e subindo num elevador minúsculo e arcaico, tão velho quanto a dinastia do desprezo, mas que me possibilita encostar minha cabeça em seu ferro gélido e crú para pausar as pertubações da alma. É logo que no segundo pavimento, dou de cara numa convidativa janela. Ali, como numa amplitude teatral, eu olhava paulatinamente a rua das ilusões e suas poças de chuva em seu asfalto histórico. E as árvores aplaudiam minhas lágrimas mornas que surgiam feito ondas de água doce: praticamente imperceptíveis. Era uma enchurrada de gotas presas, ao som de algum seguidor de Mr Presley.
Mas, as árvores deixam de ser platéia, sacudidas pelo ar frio ao tempo que as paredes querem dilacerar minha carne no chão maestroso do Recife Velho.
Contudo, um alguém com aroma de cevada me dá um abraço, e um laço se cria. Não me conhece, não sabe o que pode se passar, mas me dirige palavras que o diabo não pode morder.
E me recordo do dia de sol que andei transtornado entre os corpos e carros da redenção de Santo Amaro, onde os ventos embarcaram meu olhar na parede interna de um simples boteco que trazia o letreiro: "Deus está no comando de tudo".
Caiu como um alívio imediato. Porém é fato que as horas e o despertar de pesadelos incógnitos, retrazem as sensações cruéis branco-e-preto.
Olho ao chão e vejo o cafuso varrer rispidamente a lama que reflete o meu olhar seco, e acabo desejando ser lavado, tocado pela luz desconhecida, criacionista, pelo mar em vida plena.
É na alvorada da lua, com os pássaros gritando piedade, que a eterna luta se segue na marcha solitária e bravante, pois a luta mais árdua é contra si próprio.
02h46 30/11/08.
domingo, 30 de novembro de 2008
Mariposas Enamoradas
Já me descrevia como mariposa que queria fugir do casulo modelar sem se quer cogitar que uma outra mariposa me traria claridade...
Você resgatou minhas sensações do abismo chamado coração das mariposas. E foi através das "Mariposas Suicidas" que eu te vi: toda aquela magia figurada, aquela cartase sobre o Amor ficou presa em meu olhar e palavras por longos dias. Até que numa noite inspiradora, com a luz em minha face, eu me desprendia da neutralidade e caia no estranhamento a professar em melodia ríspida que "ele se revela uma farsa" e movimentando levemente minha cabeça te encontrei em expressão sólida na primeira cadeira à direita. Assim, após juntar-me a um coro operário e cantar que "estranhem o que não for estranho" e sentar pra um debate semanal sobre musicalidade, quarta parede e até socialização dos preconceitos, com tantas caras e palavras, eu estava sentado de frente a ti, e pude sem a mínima malícia perceber os teus traços e cores.
E adiante, horas depois de ver Os Cegos perderem uma luta conta a Morte e tocarem de maneira considerável a minha alma, te reencontrei inúmeras vezes. Te tocava com os olhos, trocava palavras breves e trêmulas. E em pessoas que piscam, acabei por te beijar, e não conseguia ouvir mais a batida explosiva que caracterizava aquele ambiente, nem sentia os esbarros propositais.
Quase oito semanas depois, você me retirou da fechadura e me fez alavanca com seu sorriso explendido. O teu toque é capaz de apagar minha angústia. Tua pronúncia retoca a minha pele. Os teus beijos saciam minhas ânsias. Me anestesias por inteiro. Você parece que veio de uma caverna distante. Talvez de Londres, Pittsburg, Blumenal ou Liver Pool, arrisco dizer que tenhas vindo de Tácito pra me recolocar voz com tua luz, e quem sabe pra me trazer o conforto de poder amar.
És parte de minha fantasia real, natureza total dos meus pensamentos e o motivo pelo qual exigo que me expulsem do labirinto da solidão.
Então, só peço que continueis em minhas páginas, minha mariposa iluminada!
03h14. 30/11.
Você resgatou minhas sensações do abismo chamado coração das mariposas. E foi através das "Mariposas Suicidas" que eu te vi: toda aquela magia figurada, aquela cartase sobre o Amor ficou presa em meu olhar e palavras por longos dias. Até que numa noite inspiradora, com a luz em minha face, eu me desprendia da neutralidade e caia no estranhamento a professar em melodia ríspida que "ele se revela uma farsa" e movimentando levemente minha cabeça te encontrei em expressão sólida na primeira cadeira à direita. Assim, após juntar-me a um coro operário e cantar que "estranhem o que não for estranho" e sentar pra um debate semanal sobre musicalidade, quarta parede e até socialização dos preconceitos, com tantas caras e palavras, eu estava sentado de frente a ti, e pude sem a mínima malícia perceber os teus traços e cores.
E adiante, horas depois de ver Os Cegos perderem uma luta conta a Morte e tocarem de maneira considerável a minha alma, te reencontrei inúmeras vezes. Te tocava com os olhos, trocava palavras breves e trêmulas. E em pessoas que piscam, acabei por te beijar, e não conseguia ouvir mais a batida explosiva que caracterizava aquele ambiente, nem sentia os esbarros propositais.
Quase oito semanas depois, você me retirou da fechadura e me fez alavanca com seu sorriso explendido. O teu toque é capaz de apagar minha angústia. Tua pronúncia retoca a minha pele. Os teus beijos saciam minhas ânsias. Me anestesias por inteiro. Você parece que veio de uma caverna distante. Talvez de Londres, Pittsburg, Blumenal ou Liver Pool, arrisco dizer que tenhas vindo de Tácito pra me recolocar voz com tua luz, e quem sabe pra me trazer o conforto de poder amar.
És parte de minha fantasia real, natureza total dos meus pensamentos e o motivo pelo qual exigo que me expulsem do labirinto da solidão.
Então, só peço que continueis em minhas páginas, minha mariposa iluminada!
03h14. 30/11.
sábado, 8 de novembro de 2008
Incomum
"Que belo estranho dia pra se ter alegria!"
Lula Queiroga
Lula Queiroga
Hoje o sol resplandeceu em minha face um sorriso enamorado, tudo está numa neutralidade harmônica.
Hoje, o infortúnio trânsito do Derby não irá me constranger. A poluição visual das propagandas politiqueiras que ainda sujam algumas faixadas e calçadas da cidade nem irão me irritar. Nem se quer o imperialismo do consumo me vitimará. O genocídio declarado da pureza será ofuscado.
Pois hoje, a noite resplandecerá numa aquarela florida de amor. Os palcos irão insinuar a todo mundo como deve soar a arte. Flamingos, Araras-Azuis, Curiós e Onças-Pintadas entoarão um coro maestroso em plena Amazônica contra a extinção.
Hoje, alternativo e convencional se unirão como nunca antes, fazendo com que a tolerância ganhe significado real. O subúrbio terá alcançada sua suntuosidade e os homens de rua encantarão com graça e sensibilidade.
As avenidas estarão cobertas por folhas secas e as praias límpidas em brisa plena.
Ondas de inquietação provocarão o progresso pelos sindicatos e prédios.
Teatros e cinemas se encontrarão repletos com a magia da juventude outrora inerte.
Os automóveis serão largados nas garagens e as pessoas enfeitarão a cidade com olhares.
Hoje, a dita irremediável violência será ofuscada pela luz. Os rios fluirão em brilho eterno.
Corpos garbosos e rostinhos perfeitos sumirão da televisão. O dom será algo quase palpável e sensitivo.
Os jardins cantarão hinos de felicidade e os boêmios chegarão a proclamar a independência matinal.
Não enxergaremos a fome nas calçadas, nem ouviremos as balelas brasilienses. Sentiremos coletivamente a pureza do verde, e as cabeças quase sempre surtadas serão aliviadas pelo toque infantil.
Os jornais divulgarão os conceitos introspectivos. A filosofia transcenderá na mentalidade da famigerada massa, que descartará a mídia.
Nas beiradas dos manguezais a lama traduzirá inspiração recifense e até os mais capitalistas se renderão à embolada multicultural.
Em mais alto tom os anciões expressarão suas inquietudes. Professores estamparão sorrisos brados.
Mas, é na mais alta entonação desta melodia perfeita, que o som falha. Meninas estão sendo mortas em seqüestros televisionados. Farsas musicais voltaram ao topo de nossas paradas. Meninos brasileiros estão virando seriais Killers. Palhaços de terno retornaram ao poder com a aprovação da massa. E estão mudando a estruturação de nossa língua enquanto crianças são mortas nas chacinas. Homossexuais regrediram aos guetos e o invisível apartheid retornou ao cotidiano.
Contudo, é em meio à nossa esplêndida balbúrdia que o samba de Roberta* semeia sua mensagem em nossos cinco cantos fazendo com que a esperança brote em poucos, mas se faça presente ao menos neste escrito de quem clama por misericórdia individual.
*Roberta Sá, intérprete da música em epígrafe, “Belo e Estranho dia de Amanhã”, composta pelo pernambucano Lula Queiroga.
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