domingo, 3 de agosto de 2008

Notas Vagas

Você marcou minha alma como um bicho geográfico e quase me deixei ser devorado por completo.
Até pouco tempo ainda bebia as últimas gotas dessa paixão infame. Pois eu anseiava ressentir teu sorriso, repensar o sabor de teus beijos e quem sabe mergulhar em caminhos mútuos. Mas a realidade me declara que não quebraremos novamente a barreira dos limites.
Te vejo feliz e sinto uma alegria confusa. E enquanto eu torço por vocês, estou me dando uma chance de ser feliz.
Emplantastes em mim a inocência de teu veneno, e eu, talvez, não tenha deixado nem uma marca relevante em teu ser.
Este sentimento é um despautério iluminado. Mesmo com toda certeza de que um ponto final foi dado, ouso em querer vírgulas e ainda guardo a caixinha branca como me pedistes.
Nesse romantismo efêmero eu despejo meu estado atual, pois a mão que pronuncia tais palavras é a mesma que une os laços. Os lábios que silenciam as dores são os mesmos que provam da tentação. As pernas que caminham nas ruas são as mesmas que compõem a marcha solitária. Os olhos que encantam horrores são os mesmos que destroem amores.
E o canto que embala a serenata de risos é o mesmo que se recolhe no escuro a cantarolar o pranto das coisas.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sobre Castelos Sociais

Aquela tarde radiava um céu nublado e misterioso. Ríamos sem parar!
As taças de vinho nos levavam a sentir uma maioridade livre.
Os bilhetes de amizade trocados em guardanapos.
O alternativo estava ambientado.
Mas, na esquina defronte, uma menina gemia a vida.
Lamentava o tracejar dos ventos.
Em seu castelinho imaginário ela idealizava um círculo cromático: as cores que lhe trouxessem vida, que lhe trouxessem um pouco de luz.
Uma vida que significasse mudança, que viesse a ter um sabor que seu paladar até então desconhecera.
E ali, no relento, ao ver o gozo coletivo no castelinho marrom, suas chagas roxas em sua pele descancarada de vermelho-vida, deixavam evidente a quem entoasse um mínimo olhar que o único desejo daquela nobre vida em sua tela atual, era de ter uma cama.
Uma cama onde pudesse descansar a vida. Onde pudesse aliviar os pesadelos. Onde pudesse relaxar sua fleumática infância. E, enfim, onde viesse a gozar de mínima e inédita dignidade.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Celebrando a Conformidade.

Eu ainda caminhava pelo centro da veneza brasileira, com intuito de aguardar um coletivo, quando soube da notícia.
Ao chegar em casa, entrei em minha alcova infinitamente minha, e pensei três vezes se iria ou não até a capelinha. Antes de sair fixei meus olhos no "Ordem e Progresso?" que destaquei em negrito no centro de nosso símbolo nacional, e patriota, que fica pendurado numa parte escondida da parede lateral.
Chegando na entrada transversal vi a capela lotada. Ao adentrar na igreja falei com alguns conhecidos e de longe avistei meu irmão. A comunidade estava reunida pronta para o provável moratório ato litúrgico.
As beatas com seus lenços e terços de madeira. A juventude paroquial e seus modernos rosários coloridos. As pessoas trocavam olhares de misericórdia, de acalanto, de fraternidade. Os parentes e conhecidos lotavam as duas fileiras de assentos, juntamente aos curiosos que cobriam a entrada, afinal não é sempre que se tem um cadáver na igrejinha de Fátima.
À frente do altar estava o corpo a ser velado. Ao lado do caixão a imagem de uma Maria idealizadamente européia se fazia brilhante num lindo andor.
Derepente alguns iniciaram uma curta procissão com o desejo de ver a pobre senhora no caixão. Sempre considerei o ritual de uma missa de corpo presente um tanto mórbido e doloroso, mas algo fazia deste diferente. O nome da falecida era Dona Biu, uma senhora calada e alegre, mas que era conhecida por todos e isso fazia sua nobre alma presente. Em suas mais de 8 décadas de vida, ela dedicava as manhãs e noites dos sete dias da semana a cuidar daquela capela. E ali, onde sempre zelou, estava a sua matéria.
Enquanto eu sentia arrepios naturais ao assistir o pranto dos parentes, passou ao meu lado um cãozinho negro. O cachorro parecia desesperado, mas a sua fiel intenção era chegar perto do caixão; logo notei que o cachorro era especial, pois ninguém ousava em expulsá-lo do recinto. Sim! O mamífero abatido era de propriedade da Dona Biu! Ele permaneceu durante toda a celebração fúnebre e de explícita forma ensinou algo grandioso e puro aos racionais humanos que o cercavam.
Foi, então, que se encerrou a homenagem e cada um voltou-se ao seu lar. Contudo, a grande razão que me faz escrever esse episódio cotidiano, é que a anciã que tanto fez pela pátria como tantos idosos, faleceu num certo Hospital da(utópica) Restauração, mas morreu aguardando uma vaga na UTI. Parece surreal tal absurdo! Mas 1 vaga na UTI poderia ter prolongado os dias da devota velhinha.
Dedico então essas linhas à Dona Biu: um número inocente que se junta na cruel estatística dessa chaga infernal que os governantes ousam em chamar Saúde Pública. E se não fosse o bastante ficar refletindo em nervosia tal fato, ligo a TV e sinto enorme dor e revolta ao ver que um garoto de 5 anos foi metralhado, por engano, pelos homens da Segurança Pública: pelos destreinados infames travestidos de PM´s!
Sim, Renato! "Que país é esse"?!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Introdução

Sou o poeta em sua busca constante pela arte.
Sou uma estrela querendo achar a hora de sua constelação.
Sou o enigma que quer te fazer encontrar as razões da palavra.
A palavra que grita por constituir um verso.
Sou o prazer de respirar meus sonhos.
O detalhe que me torna único numa transparência que desfaz a pretenção julgada.
Sou a emancipação da ferida gelada.
O colorido de meu próprio vazio.
A incógnita disfarçada com dureza pros outros.
Sou a penúria no castelo real e o peralta que se perdeu no tempo.
Sou a suntuosidade deste desterro. A figura viva do flagelo modelar. O inocente que se faz ébrio.
Sou o escândalo silenciado pelo medo.
A indecência que luta contra a vergonha.
Sou a liderança eufórica que fugiu dos holofotes.
E também a meticulosidade de quem quer alcançar os topos.
Sou a dignidade de quem desce as ladeiras e a frieza que afasta as pessoas.
Decerto uma contradição eloquente que me garante os risos no vale de lágrimas.
E enfim o jogo de termos que cria força nas idéias de quem ler.
Eis aqui a descrição momentânea de uma jovem alma que ora aflitamente ora suavemente caça as exclamações que sejam capazes de aguçar suas introspectivas indagações.

Elilson Nascimento.

domingo, 29 de junho de 2008

Resignação Harmônica

O espelho refletia-me superficialmente. Fizera um terço de hora que eu estava no banheiro. Após jogar água em minha face, paralizei as ações e passei a observar assiduamente as gotas que iniciavam a escorrer na base de minha testa e pingavam lentamente ao chegar em minha mandíbula. Algumas delas, formavam um rio seco de glória em meus lábios.
Passei uma das mãos em meus cabelos ao mesmo tempo que a outra cubria meus olhos. Com a brecha formada pelos dedos eu os via piscarem como os ponteiros do antigo relógio. Deixei as mãos soltas e fiz meu olhar cruzar-se consigo mesmo. Sem perceber, fui encostando-me ao reflexo. Gradativamente deixando o vago momento fluir. O chuveiro mais ao canto começou a gotejar. Minhas pálpebras seguiram tal movimento produzindo um som que remotava-me à imagem de um porão. E assim continuei até o inesperado colapso ocorrer: mergulhei em meus próprios e infinitos olhos. Caminhei por dentro de meu corpo. Revi cenas esquecidas nas codificações de meu sangue. Choquei-me então com dois caminhos. Em uma via percebia ligeiramente uma pigmentação de luz, enquanto na outra não conseguia distinguir nada. Foi na última que lançei meus membros. Terrivelmente senti nos mais profundos vales de meu ser as páginas de inquietações de minha adolescente vida. Com os segundos a sensação queria me esgotar, tornar-me mais inerente que a ausência de palavras. Nadei até a ponta das vias guiado por uma propriedade natural. Adentrei no ponto de luz e vi um livro com aparência de um baú. No instante em que o alcancei, uma bomba explodiu externamente.
Alguém batia na porta do banheiro. Fui sugado pelo ambiente. A impressão correlata era de que cometia um auto-flagelamento. Retornei à origem bucólica. Desfiz meu dúbio e surreal nirvana ao abrir meus olhos. Nesse exato segundo meu reflexo mostrava as expressões de um profundo e mudo grito. Respirei, enxuguei o rosto e abri a porta. Ele adentrou, e eu saí da inércia inconstrutiva posto que a experiência particular retirou-me o ócio e me pôs a transcrever estas curtas linhas.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Sentimento Incógnito

Para Amy Winehouse é "um fato resignado". Em contra-ponto Christina Aguilera canta que "é o necessário para salvar-se de si mesmo" e Marisa Monte declara: "Não se trata de um jogo de azar". Na Bíblia foi descrito como um livrador de temores". Numa visão bem mais profunda Clarice Lispector sabiamente afirmou que "é mais inerente que a própria carência". E para mim, professo que o amor é uma transcriptase reversa* benígna.
Como tal ele destorneia as funções naturais: nos faz querer achar a fuga campestre no mar agitado, buscar nos seios da solidão o conforto aguardado bem como uma contínua compreensão de seus mistérios na reclusão.
Todavia, tal processo retrógado é benéfico, necessário, preciso. É um golpe da graça que alicerça de maneira consistente nosso mundo. Com suas variadas formas, adornos e direcionamentos é capaz de dominar até o mais frio e seco humano. Melhor dizendo, trata-se de um sentimento que engloba todas as espécies de terráqueos em suas particularidades.
Certo dia fui categoricamente questionado se já havia amado. Eu respondi que amo todos os dias. Quando minha alma entra em sintonia com outra através das palavras-a força cinética das relações- ou mesmo através de sorrisos, quando estou em contínuo contato com minha família, com meus amigos, quando afago uma criança, compreendo um animal, enxergo um humano: estou amando. Mas eu tinha razão que a pergunta se referia ao sentido carnal. Agora confesso que nesse ponto várias vezes já obti como a maioria de nós o sentimento que talvez seja o mais incógnito pela sua efemeridade e normalidade: a paixão: eis a virose sensível.
Tenho o dissernimento de que viver sem amor em sua complexidade não é vida. Enquanto eu tiver razão de que existe amor não ousarei em desistir, pois é como diria Machado: "o modo, pouco importa. O essencial é que saibamos amar"!

*Termo biológico: enzima que caracteriza os retrovírus e permite a função desordenada do sistema.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A Mosca.

Tudo parecia imóvel. As árvores, galhos, pessoas, o ar... parecia que uma cápsula invisível e incolor de inércia tomava conta do público lugar.
Até mesmo um jovem sob efeito químico não conseguia adquirir do ambiente o movimento normal.
Eu estava paralisado em meio ao tudo que nada transmitia.
Um calor incomum no início de noite esteve característico.
Enquanto eu observava,de camarote natural, que algo sério ocorria com o jovem, uma mosca completou seu ciclo e caiu em óbito no meu papel.
O calor excedia. E eu, perplexo, observava a minúscula ex-vida abaixo de meu nariz.
A complexidade que aquilo me proporcionou inundou o momento de memórias e interrogações, mas o movimento ainda não caminhava ao exorbitante.
Contudo, o banco começou a passar ao meu corpo certa umidade: uma explosão sensorial. O leve frio adentrou em minhas costas. Ao redor, a brisa começou com sua bucólica ação. A mosca vôou sem vida se perdendo entre os quase infinitos grãos de areia.
Tive uma overdose inexplicável. Mas uma bem diferente daquele jovem que carregado foi pelos encapados amigos.
Foi então que em minha frente passava uma bípede com seu filhote. Aquela pequena nova vida aprendia os caminhos da terra. E eu me lembrei da mosca que conhecera morta minutos antes. O vento bateu em minha mente me levando a compreender que este é um ciclo constante.
Olhei as horas. Havia perdido a noção do tempo. Levantei e andei um pouco no parque.
Enquanto eu sonhava com as letras próprias divulgadas fora dali, tive a certeza de que a mosca me ensinou algo tão singelo e profundo como a doce necessária dor que é o amor.