Era destinado a caminhar.
Enfrentar os martírios do sol, conhecer cada rastro da solidão agreste dos desertos da vida, era pontos essenciais ao seu ofício. Vivia de escrever. Escrevia para (re)viver a cada vírgula, a cada fragmento de pensamento transposto em vida num papel.
Sem nem um titubeio de incerteza, seguia suas vontades repentinas. Beijava a testa de sua mulher, acariciava as orelhas do gato siamês e passava pela porta do casarão que herdara. Uma mochila preta nas costas carregava o suficiente para os dias de busca, dias de exílio em meio a outras vidas, em meio a outros tipos de vida. Levava papéis brancos e amarelados, nunca utilizados e uma ou duas roupas limpas.
Chegava a terras distantes do que se chama urbano, chegava a terras próximas do que se grita socorro (!), porém uma clemência distinta dos seres que vivem rodeados de prédios, esquinas e cinza. Ali, naquelas porções de barro, o socorro era o estopim de quem se sente pequeno, mas que sabe aproveitar cada partícula de ar que absorvia.
Naquela procura de novas palavras, em especial, viveu algo mais singular e curioso que das outras vezes. Desceu do ônibus, pegou carona numa carroça repleta de plantas e moscas, trocou mínimos cumprimentos com o velho calejado que guiava o veículo, sem nunca chicotear o animal-combustível que era tão calejado quanto seu dono. Eram calejados pelo sol, pela fleuma nunca compreendida, sempre conformada. Passou cerca de doze minutos trotando entre galhos secos e poças de lama até pedir parada. Desceu em meio ao nada ludibriado por uma ave magrela que se alimentava do asfalto da terra. Sentou numa pedra, contemplou o vago até que seu pescoço debruçou-se para cima, fazendo-o ler por inteiro a árvore que estava encostado. Levantou-se. Olhou ao redor e constatou que todas as demais árvores apresentavam a mesma estrutura ácida e peculiar que aquela. As folhas, nos galhos quase sem seiva eram substituídas por sacos plásticos. Plásticos que o vento trazia de todo lugar estacionavam ali, sem piedade, criando uma paisagem artificial, manchada.
Então, caminhou até que o sol rachasse seus lábios e enfraquecesse suas pernas. Por sorte encontrou uma caminhoneta de partida. Vários corpos amontoados. Alguns sentados, outros pendurados por armações de madeira- como araras, várias delas juntas no mesmo espaço, às vezes na mesma fatia de madeira. Partiu em pé. Uma mão presa à madeira, a outra segurando a mochila. Pálido e tomado pela sede, enganava o organismo sorrindo vez em quando ao bebê que estava em sua frente. No colo do pai, a criança o olhava de um jeito indescritível, parecia querer confortar sua agonia. A mãe da criança o cumprimentava sem muito ânimo e o pai percebia a aflição daquele homem sem cor, seguindo como eles em busca do nada, fugindo do que nem se tinha certeza. Eis que o homem simples, dono de uma rudez inocente, colocou a criança no colo da mãe e convidou que aquele escritor vivendo um dia de retirante se sentasse em suas próprias pernas, para que aliviasse seu cansaço e suas náuseas.
Assim, seguiu pelo resto da viagem, como um menino acolhido com devoção pelo colo de seu tutor. O tutor que não sabia nem o nome, tampouco quais eram os seus sonhos.
sábado, 31 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Reflexo
Caminhava descalça naquele casebre cor de caramujo. Sentia cada folha seca, cada rastro da intempérie que soprava por aquele lugar quase perdido entre o céu e a estrada.
Vestia um longo vestido azul com estrelas amarelas na estampa. Esperava pelo quê nem sabia denominar.
Vivia na companhia de sua tia-avó. Era o único pigmento de vida que palpitava na íris de seus olhos. Banhava a Senhora com devoção. Depois a colocava na cadeira e balançava até que ela adormecesse por um tempo.
Parecia não querer voar dali, mesmo sentindo que suas asas lutavam contra sua pele para poder brotar nas costas.
Ela não vivia um quadro colorido, tampouco preto-e-branco. Vivia num efeito de sépia.
Obedecia cautelosamente a um ritual que criara sem a mínima pretensão. Cuidava de sua tia, andava descalça tateando o chão da casa com os pés e ficava alguns segundos paralisada na porta de entrada. Enquanto olhava a sua paisagem particular chegava a pensar no dia em que a morte pingasse sob o telhado, no dia em que ficaria definitivamente sozinha na vida, no dia em que teria de decidir estar ali para todo o sempre ou partir pelos mistérios que poderiam viver além daquele jardim.
Sempre acabava suspirando pelos olhos, lagrimejando pelos lábios e como se alguém desse uma tapa na beira de seus ouvidos, ela voltava ao que pensava ser a Realidade. Então, continuava sua rotina caminhando pelo jardim. Era um bucolismo arcaico em forma de jardim. Sentava embaixo das duas árvores entrelaçadas e lambuzava-se com mangas. O alimento que não poderia faltar em sua vida, era como uma terapia. Ela chupava o fruto até que sua roupa estivesse manchada, até que o contorno de sua boca estivesse amarelo, doce.
Depois se dirigia até o centro do jardim onde havia uma cacimba velha e desbotada. Colhia água com a balde, lavava seu rosto e fugia mais uma vez da Realidade. Sentada no contorno da cacimba, a moça passava o tempo que fosse olhando para a água lá no fundo. Seu rosto ganhava expressões melancólicas, alegres, maduras, infantis, expressões sonhadoras. Sonhava em descobrir os mistérios daquela água que existia logo abaixo de seu corpo, desejava descobrir os seus próprios mistérios. Necessitava saber o que seria Amor. A palavra que ouvia desde a fabricação de suas primeiras memórias. Olhar aquela água remetia sua mente ao Amor, mesmo que ela não entendesse completamente, era da cacimba que se via o fundo do amor lá de cima.
É da cacimba que se vê o fundo do amor lá de cima.
Vestia um longo vestido azul com estrelas amarelas na estampa. Esperava pelo quê nem sabia denominar.
Vivia na companhia de sua tia-avó. Era o único pigmento de vida que palpitava na íris de seus olhos. Banhava a Senhora com devoção. Depois a colocava na cadeira e balançava até que ela adormecesse por um tempo.
Parecia não querer voar dali, mesmo sentindo que suas asas lutavam contra sua pele para poder brotar nas costas.
Ela não vivia um quadro colorido, tampouco preto-e-branco. Vivia num efeito de sépia.
Obedecia cautelosamente a um ritual que criara sem a mínima pretensão. Cuidava de sua tia, andava descalça tateando o chão da casa com os pés e ficava alguns segundos paralisada na porta de entrada. Enquanto olhava a sua paisagem particular chegava a pensar no dia em que a morte pingasse sob o telhado, no dia em que ficaria definitivamente sozinha na vida, no dia em que teria de decidir estar ali para todo o sempre ou partir pelos mistérios que poderiam viver além daquele jardim.
Sempre acabava suspirando pelos olhos, lagrimejando pelos lábios e como se alguém desse uma tapa na beira de seus ouvidos, ela voltava ao que pensava ser a Realidade. Então, continuava sua rotina caminhando pelo jardim. Era um bucolismo arcaico em forma de jardim. Sentava embaixo das duas árvores entrelaçadas e lambuzava-se com mangas. O alimento que não poderia faltar em sua vida, era como uma terapia. Ela chupava o fruto até que sua roupa estivesse manchada, até que o contorno de sua boca estivesse amarelo, doce.
Depois se dirigia até o centro do jardim onde havia uma cacimba velha e desbotada. Colhia água com a balde, lavava seu rosto e fugia mais uma vez da Realidade. Sentada no contorno da cacimba, a moça passava o tempo que fosse olhando para a água lá no fundo. Seu rosto ganhava expressões melancólicas, alegres, maduras, infantis, expressões sonhadoras. Sonhava em descobrir os mistérios daquela água que existia logo abaixo de seu corpo, desejava descobrir os seus próprios mistérios. Necessitava saber o que seria Amor. A palavra que ouvia desde a fabricação de suas primeiras memórias. Olhar aquela água remetia sua mente ao Amor, mesmo que ela não entendesse completamente, era da cacimba que se via o fundo do amor lá de cima.
É da cacimba que se vê o fundo do amor lá de cima.
domingo, 13 de junho de 2010
Da Arte de Suspirar
Poderia passar todas as minhas horas com você, olhando para você. Poderia escrever todos os versos de meu consciente para você. Sinto a necessidade de partilhar com as palavras o quanto é maravilhoso, o quanto me descubro através de ti. E o meu sentimento é abraçado pelas suas palavras, pelos seus gestos, pela sua gentileza em forma de pinguim. Você cativa minhas listras mais ocultas, você me resgata de meu próprio buraco negro. Em cada ângulo de meus olhos claros há uma fotografia tua, pulsando. Pulsando vida em mim. Sinto-me abençoado em chamar as horas de nossas.
E o que mais quero é te fazer feliz. É mergulhar na felicidade de mãos unidas a você, meu bem.
De alma unida a você, sinto uma liberdade inédita de ser doce. Você diminuiu minha acidez, você me fez doce. Você consegue me fazer surpreendentemente doce. Você faz de mim um Menino. Seu menino-homem. E tudo isso é exclusividade sua.
Estás em cada detalhe, em todos os versos. Estás na chuva de domingo, nas palavras desenhadas pelos meus dedos. Estás na lua que transforma minha prolixidade em poesia. Você é a minha arte de suspirar. Foi através de ti que descobri o quanto suspirar me faz bem.
De alguma maneira ou de todas as maneiras, desde aquele primeiro contato, naquela noite de festa, ao ver tuas costas partindo sem nenhuma garantia imediata de reencontro, não poderia evitar: você continuou em mim e eu sentia que parte de mim já tinha ficado contigo, embrulhada com cautela. Partes nossas conectadas, querendo se reencontrar, desde que nossas almas se reconheceram.
E que assim seja. Que cultivemos nosso sentimento. Quero ter contigo uma "vida lazer". Quero você pela manhã quando estremeço de mau humor. Te quero pela tarde quando me escondo do sol. Quero-te à noite quando contemplo detalhes da vida. Te quero pela madrugada quando viajo dentro de mim. Dentro de ti. Dentro de nós. Quero você pelas horas, pelos caminhos, pelas vias, pelos momentos, pelos gestos, pelas palavras... Quero-te pela vida, sem imposições de tempo, numa chuva plena de Harmonia.
E o que mais quero é te fazer feliz. É mergulhar na felicidade de mãos unidas a você, meu bem.
De alma unida a você, sinto uma liberdade inédita de ser doce. Você diminuiu minha acidez, você me fez doce. Você consegue me fazer surpreendentemente doce. Você faz de mim um Menino. Seu menino-homem. E tudo isso é exclusividade sua.
Estás em cada detalhe, em todos os versos. Estás na chuva de domingo, nas palavras desenhadas pelos meus dedos. Estás na lua que transforma minha prolixidade em poesia. Você é a minha arte de suspirar. Foi através de ti que descobri o quanto suspirar me faz bem.
De alguma maneira ou de todas as maneiras, desde aquele primeiro contato, naquela noite de festa, ao ver tuas costas partindo sem nenhuma garantia imediata de reencontro, não poderia evitar: você continuou em mim e eu sentia que parte de mim já tinha ficado contigo, embrulhada com cautela. Partes nossas conectadas, querendo se reencontrar, desde que nossas almas se reconheceram.
E que assim seja. Que cultivemos nosso sentimento. Quero ter contigo uma "vida lazer". Quero você pela manhã quando estremeço de mau humor. Te quero pela tarde quando me escondo do sol. Quero-te à noite quando contemplo detalhes da vida. Te quero pela madrugada quando viajo dentro de mim. Dentro de ti. Dentro de nós. Quero você pelas horas, pelos caminhos, pelas vias, pelos momentos, pelos gestos, pelas palavras... Quero-te pela vida, sem imposições de tempo, numa chuva plena de Harmonia.
Desprender-se
Distancio-me inesperadamente. Meu olhar atravessa nuvens próximas e invisíveis. A mão que segura o meu queixo deixa transparecer o momento. Não adianta querer entender se nem mesmo posso detalhar com tal propriedade. Apenas mergulho, sem notar, sem nem se quer pestanejar.
-O que houve? Você ficou distante de repente... Você e os demais perguntam inquietados.
-Está tudo bem, nada fora do meu comum.
(É que em minha mente passou a tocar outro ritmo. Em meu sangue passou a fluir um álcool diferente do que estamos bebendo. Outras imagens entraram em foco e quero apenas apreciá-las, descobri-las. Desabafo internamente com algo maior dentro de mim, que não me responde, mas parece me compreender, me possuir. O que está diante de meus olhos fala por si só. É justamente a mesma coisa que você vê se acompanhar a direção da minha vista, mas em mim, ali está a capa de outro universo. Faz parte de mim esse desprendimento, não se preocupe à toa. É que minha alma gosta do desprendimento, da arte de se desprender. Sou uma alma que gosta de se desprender. Soltar-se do momento, da fala, da ação, por minutos. Minutos que reinventam a fala, a ação, o momento. É o vago que ganha força. O que parece pequeno é gigante, basta se desprender, deixar que seu íntimo lhe domine, mesmo que isso absorva um pouco de energia, que lhe coloque uma feição triste, séria. O que é a melancolia se não a contemplação do vago pelos que sentem?!).
- Eu só estava pensando um pouco.
-O que houve? Você ficou distante de repente... Você e os demais perguntam inquietados.
-Está tudo bem, nada fora do meu comum.
(É que em minha mente passou a tocar outro ritmo. Em meu sangue passou a fluir um álcool diferente do que estamos bebendo. Outras imagens entraram em foco e quero apenas apreciá-las, descobri-las. Desabafo internamente com algo maior dentro de mim, que não me responde, mas parece me compreender, me possuir. O que está diante de meus olhos fala por si só. É justamente a mesma coisa que você vê se acompanhar a direção da minha vista, mas em mim, ali está a capa de outro universo. Faz parte de mim esse desprendimento, não se preocupe à toa. É que minha alma gosta do desprendimento, da arte de se desprender. Sou uma alma que gosta de se desprender. Soltar-se do momento, da fala, da ação, por minutos. Minutos que reinventam a fala, a ação, o momento. É o vago que ganha força. O que parece pequeno é gigante, basta se desprender, deixar que seu íntimo lhe domine, mesmo que isso absorva um pouco de energia, que lhe coloque uma feição triste, séria. O que é a melancolia se não a contemplação do vago pelos que sentem?!).
- Eu só estava pensando um pouco.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Mini-conto da Desilusão
Despertou do coma de duas décadas.
A enfermeira gritou glória aos céus.
Após uma hora de auto-reconhecimento, ela estava na janela da enfermaria.
Viu faces pintadas, bandeiras, gritaria...
-A revolução sobreviveu?! Perguntou emocionada.
-Estamos em copa do mundo, respondeu euforicamente a enfermeira.
Ela voltou a dormir.
A enfermeira gritou glória aos céus.
Após uma hora de auto-reconhecimento, ela estava na janela da enfermaria.
Viu faces pintadas, bandeiras, gritaria...
-A revolução sobreviveu?! Perguntou emocionada.
-Estamos em copa do mundo, respondeu euforicamente a enfermeira.
Ela voltou a dormir.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Há quem Padeça por Amar
Maio de 1997. São Paulo. Os dois voltavam em silêncio no carro. Na rádio tocava uma sucessão de clássicos da Soul Music. Eles tocavam-se pelos dedos. Em certos instantes, o que dirigia diminuia a velocidade para deslizar seus olhos na face do que estava no banco ao seu lado, sem cinto de segurança, com a cabeça curvada em sua direção. Passaram a noite juntos. Jantaram. Correram na chuva, abraçados, distante de suas residências, de seus trabalhos. Comemoravam um ano de relacionamento, um ano de amor compartilhado, de amizade, de apego.
Voltavam tranquilos pelas ruas, fazendo contornos maiores, pegando atalhos mais longos para continuarem ali, juntos um ao outro.
"Não precisa me deixar na esquina de minha rua. Deixe-me umas três ruas antes, já é o suficiente. Há iluminação, o bairro é pacato até demais. A boemia ainda deve está rolando solta, ficarei seguro". Repetiu a mesma coisa umas três vezes, fazendo com que o seu namorado, que dirigia, que ainda cruzaria uns vinte minutos para chegar em sua casa, acatasse aquele pedido.
Na verdade, ele não queria ter que ser alvo dos comentários da vizinhança na manhã seguinte. Sabia que sempre há um olho aberto quando a felicidade alheia está vivendo sobre a noite. Sempre há um dedo sujo pronto para engatilhar violência. Sabia que sempre existiria uma língua crua a soltar moralismo hipócrita pelas sacadas.
Na rádio começou a tocar uma gravação de Nina Simone que os dois adoravam. Pararam o carro. Cruzaram os braços, segurando firme a nuca um do outro. Era uma mania dos dois desde o primeiro dia em que trocaram carícias. Cantarolaram a canção até o último toque do piano. Deram-se conta de que já estavam no fim do percurso.
Não se deram conta que de fato a boemia rolava solta. Mas, uma boemia antônima à sua boemia. Quatro rapazes os observaram desde a freada do veículo, zombando, assistindo inexplicavelmente enojados.
Sem notar a infame companhia, despediram-se com um beijo. Um beijo curto, dado com cuidado. O namorado-passageiro abriu a porta e desceu do carro. Baixou-se na altura da janela e os dois trocaram com os lábios na ausência de som: "você é meu".
O que dirigia seguiu seu caminho. O outro seguiu caminhando. Faltava apenas umas curvas para chegar em sua casa e voltar à rotina. Então, percebeu as piadas, notou a presença dos quatro jovens, tão jovens quanto ele, com expressões de ódio. Fingiu que não acontecia nada de anormal. Apressou os passos, os outros quatro também. O medo fez com que ele desviasse o caminho, se distanciasse mais dali a fim de despistar aqueles homens. Até o momento em que não conseguiu correr, sentiu um medo que dominou sua movimentação, que deixou seus músculos rígidos. E aqueles quatro o cercaram.
Na rua inóspita seu corpo esbelto caiu na sujeira. Socos, chutes, cuspes, gestos que desmoralizavam sua moralidade, sua masculinidade. Arrancaram-lhe a calça. Ele tentou fugir, gritar, mas era impossível. Um táxi passou de repente. O homem ao volante conhecia um dos agressores. Parou o carro. "O que fez de tão grave esse aí?!", perguntou. "É só um viado". , respondeu o seu conhecido. Eles trocaram risos lastimáveis e o taxista partiu, sem o menor indício de piedade.
Continuaram a torturar o corpo do rapaz. Apostavam entre eles quem dava o soco que espirrava mais sangue. O namorado-passageiro só tinha um olho esquerdo semi-aberto. O direito jorrava sangue.
Um daqueles quatro opressores teve uma atitude ainda mais cruel: começou a utilizar uma placa metálica velha que encontrou na calçada deserta. E continuaram a matar pouco a pouco aquele recém formado jornalista que nunca fez uma gota de maldade a eles, que nunca nem havia cruzado o caminho deles.
Vinte e um minutos de pachorra, de ira, de desamor, de estupidez.
Antes do olho-esquerdo apagar, a última imagem que tinha era do sorriso de seu amante soltando sílabas apaixonadas.
Assim, o rapaz deixou de existir, virou um cadáver, outro número esquecido. Desfigurado, numa esquina suja, com os lábios formando um quase sorriso. Morreu na madrugada de 17 de maio de 1997, nove anos depois do amor que ele vivia ter deixado de ser considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Morreu no dia em que passaria a ser chamado de Internacional Contra a Homofobia.
Voltavam tranquilos pelas ruas, fazendo contornos maiores, pegando atalhos mais longos para continuarem ali, juntos um ao outro.
"Não precisa me deixar na esquina de minha rua. Deixe-me umas três ruas antes, já é o suficiente. Há iluminação, o bairro é pacato até demais. A boemia ainda deve está rolando solta, ficarei seguro". Repetiu a mesma coisa umas três vezes, fazendo com que o seu namorado, que dirigia, que ainda cruzaria uns vinte minutos para chegar em sua casa, acatasse aquele pedido.
Na verdade, ele não queria ter que ser alvo dos comentários da vizinhança na manhã seguinte. Sabia que sempre há um olho aberto quando a felicidade alheia está vivendo sobre a noite. Sempre há um dedo sujo pronto para engatilhar violência. Sabia que sempre existiria uma língua crua a soltar moralismo hipócrita pelas sacadas.
Na rádio começou a tocar uma gravação de Nina Simone que os dois adoravam. Pararam o carro. Cruzaram os braços, segurando firme a nuca um do outro. Era uma mania dos dois desde o primeiro dia em que trocaram carícias. Cantarolaram a canção até o último toque do piano. Deram-se conta de que já estavam no fim do percurso.
Não se deram conta que de fato a boemia rolava solta. Mas, uma boemia antônima à sua boemia. Quatro rapazes os observaram desde a freada do veículo, zombando, assistindo inexplicavelmente enojados.
Sem notar a infame companhia, despediram-se com um beijo. Um beijo curto, dado com cuidado. O namorado-passageiro abriu a porta e desceu do carro. Baixou-se na altura da janela e os dois trocaram com os lábios na ausência de som: "você é meu".
O que dirigia seguiu seu caminho. O outro seguiu caminhando. Faltava apenas umas curvas para chegar em sua casa e voltar à rotina. Então, percebeu as piadas, notou a presença dos quatro jovens, tão jovens quanto ele, com expressões de ódio. Fingiu que não acontecia nada de anormal. Apressou os passos, os outros quatro também. O medo fez com que ele desviasse o caminho, se distanciasse mais dali a fim de despistar aqueles homens. Até o momento em que não conseguiu correr, sentiu um medo que dominou sua movimentação, que deixou seus músculos rígidos. E aqueles quatro o cercaram.
Na rua inóspita seu corpo esbelto caiu na sujeira. Socos, chutes, cuspes, gestos que desmoralizavam sua moralidade, sua masculinidade. Arrancaram-lhe a calça. Ele tentou fugir, gritar, mas era impossível. Um táxi passou de repente. O homem ao volante conhecia um dos agressores. Parou o carro. "O que fez de tão grave esse aí?!", perguntou. "É só um viado". , respondeu o seu conhecido. Eles trocaram risos lastimáveis e o taxista partiu, sem o menor indício de piedade.
Continuaram a torturar o corpo do rapaz. Apostavam entre eles quem dava o soco que espirrava mais sangue. O namorado-passageiro só tinha um olho esquerdo semi-aberto. O direito jorrava sangue.
Um daqueles quatro opressores teve uma atitude ainda mais cruel: começou a utilizar uma placa metálica velha que encontrou na calçada deserta. E continuaram a matar pouco a pouco aquele recém formado jornalista que nunca fez uma gota de maldade a eles, que nunca nem havia cruzado o caminho deles.
Vinte e um minutos de pachorra, de ira, de desamor, de estupidez.
Antes do olho-esquerdo apagar, a última imagem que tinha era do sorriso de seu amante soltando sílabas apaixonadas.
Assim, o rapaz deixou de existir, virou um cadáver, outro número esquecido. Desfigurado, numa esquina suja, com os lábios formando um quase sorriso. Morreu na madrugada de 17 de maio de 1997, nove anos depois do amor que ele vivia ter deixado de ser considerado uma doença pela Organização Mundial da Saúde. Morreu no dia em que passaria a ser chamado de Internacional Contra a Homofobia.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Demora
Dedos misturando-se à penumbra.
Os cães ladrando nas beiradas da rua.
Silêncio de madrugada.
Os ventiladores ligados às tomadas elétricas da casa. Vida na escuridão. Sombra da cabeça dançando na parede, negra. Um resquício de reflexo no televisor. Embalagem de biscoito enfeitando o sofá. Notas agudas ecoando vez ou outra do computador.
Dois dedos que brincam de amar nas bordas úmidas do copo de vidro.
Pescoço que estala momentaneamente. Mosquitos pousando na tela, traços góticos de olhos que não dormem. O vento pincelando o telhado.
A palavra Deus nítida em um calendário.
[ ]
Há um santo torto dentro de mim.
Os cães ladrando nas beiradas da rua.
Silêncio de madrugada.
Os ventiladores ligados às tomadas elétricas da casa. Vida na escuridão. Sombra da cabeça dançando na parede, negra. Um resquício de reflexo no televisor. Embalagem de biscoito enfeitando o sofá. Notas agudas ecoando vez ou outra do computador.
Dois dedos que brincam de amar nas bordas úmidas do copo de vidro.
Pescoço que estala momentaneamente. Mosquitos pousando na tela, traços góticos de olhos que não dormem. O vento pincelando o telhado.
A palavra Deus nítida em um calendário.
[ ]
Há um santo torto dentro de mim.
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