Lembro-me perfeitamente de uma certa madrugada no ano de 2000. Não conseguia dormir e escondido de meus pais ligava a TV. Uma certa cantora dava vida à música "A Carne". Aquele timbre único, aquela expressão ao cantar ficaram marcados em minha mente.
Anos depois, em 2007, lágrimas de vibração caíam dos meus olhos ao assisti a abertura do jogos Panamericanos no Rio de Janeiro. A mesma e digníssima Elza Soares emprestava sua magnífica voz ao nosso Hino Nacional em capela. Tudo que ela interpreta torna-se naturalmente um Hino. Mas nunca senti tanta emoção em entoar ou ouvir um de nossos maiores símbolos como naquele dia.
No Carnaval de 2008, a euforia me dominava ao saber que ela e Marisa Monte iriam ser responsáveis pela abertura do Carnaval Multicultural do Recife ao lado dos nossos admiráveis Naná Vasconcelos e Lia de Itamaracá.
Quando vi aquelas pernas suntuosas descendo as escadas do palco no Marco Zero meu peito disparou, mas não se comparou a quando sua voz começou a soar por todos os cantos.
Depois dali, Elza fez um espetáculo no Clube das Pás, mas por ser menor de idade não pude ter um gozo cultural naquele dia.
Mas, ontem, finalmente, pude ter a chance de conferir um espetáculo inteiro da maior expressão artístico-feminina desse país. Cada palavra, cada frase, cada olhar, cada sapateado, cada pose ousada, cada nota dada hipnotizavam minha mente naquela cadeira do Teatro do Parque. E que lugar privilegiado! Cheguei às 15h, para o evento que iniciou às 18h30 com a deliciosa Monica Feijó. Logo tratei de escrever algo singelo com a esperança de entregar nas mãos da própria Elza.
Fiz amizades com agradabilíssimas Senhôras e alguns atores. Foi um dia como nunca tive. Da mais pura harmonia.
Pouco tempo após Elza dominar e radiar de luz aquele palco, não pensei duas vezes. Estava tão perto dela, decorava cada detalhe de seu rosto, de seu corpo, de sua dança que não poderia perder a oportunidade. Ergui-me do assento e estendi a mão direita trêmula com o meu manuscrito. Após 5 esplêndidos segundos de almas se cruzando em olhos, Elza atendeu meu pedido. Voltei a sentar feito uma criança boba.
Sem dúvidas, foi o melhor espetáculo que já vivenciei. Aquilo não é uma voz, é um baita Instrumento. Não há ninguém como ela. São mais de meio século dando sabor, intrepidez e alma à construção da história da Música Popular brasileira. Uma menina com mais 70 anos de vida, num escultural corpo de 20 e uma alma que é mais jovem que qualquer outra.
Se ela não mencionasse à plateia que infelizmente estava com uma altíssima febre, ninguém, nenhum de nós perceberíamos. Pois era energia e voz para dar a vender. Uma vitalidade no palco que pouquíssimas cantoras jovens têm. Sem falar no carisma e simplicidade da "Cantora do Milênio", eleita em 2000 pela BBC de Londres.
A menina negra que casou aos 12 anos. Que reconhecendo a potencia de sua própria voz se arriscou em ir em busca de espaço para conseguir alimentar os filhos. A jovem mulher que carregava lata d'água na cabeça dentre os morros cariocas, que logo alcançou seu digno espaço, que conheceu e foi admirada por lendários como Louis Armstrong e Ella Fitzgerald, que foi cruelmente humilhada e perseguida pela suja imprensa do Brasil por ser uma mulher ousada, intrépida, singular, que teve de enfrentar sempre o preconceito é simplesmente a personificação da Arte nos mínimos detalhes.
É belo admirar sua força. Uma mulher humilhada, que perdeu o grande amor, Garrincha, de forma avassaladora e anos mais tarde também o único filho que teve com ele, distanciou-se do segmento auto-destrutivo de muitas outras cantoras em nome de seu exímio Dom. Como a mesma dizia: Canto para não enlouquecer.
Ontem, foi um momento maravilhoso e único. E como se não bastasse toda a magia das performances, na última música, Elza voltou radiante e após pegar na mão de alguns fãs, veio em direção a mim, e minha mão suava frio exatamente como está suando agora. Eu segurei delicadamente em sua mão e a beijei tentando exprimir as palavras que eram impossíveis de sair. Então, a Generosa e Grandiosa Elza abaixou-se e me deu um lindo abraço e eu debruçava meus lábios em sua face enquanto ouvia seu sussurrar: "Eu li".
Foram segundos inefáveis que com certeza marcaram minha vida. Não conseguia falar alguma coisa. Depois do espetáculo encerrado todo mundo percebia minha euforia ao me ver saltitando pelo espaço, como uma criança que ganha a primeira bicicleta.
Que humildade tem nossa Maior e Melhor intérprete! Acredito que todos nós devemos ter um pouco de Elza em nossas almas. E que continuemos a Ovacionar e ovacionar "a única e somente e que nunca haverá outra igual", E-L-Z-A S-O-A-R-E-S.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
Interlocutor do Amor Alheio
Com o meu pescoço curvado, observo cada gesto que involuntariamente executo com minhas mãos entrelaçadas, pois de alguma forma, nessa minha visão turva, estou te olhando.
Ter o meu pensamento dominado por você é uma junção das coisas que mais amo e que mais odeio. As constantes gargalhadas estampadas em meu rosto, escondem cuidadosamente essa angústia que há em minhas entranhas.
Desde aquele primeiro instante, em que minha pré-adolescência se cruzou com teu jardim de infância, essa novela mexicana teve início.
São anos de martírio desnecessário, mas cada parcela de tempo que posso estar junto de seu corpo, quando tenho o meu território invadido pelos teus pés reafirmo-me nesse complexo devaneio da desilusão.
Somos como dois planetas distintos ocupando a mesma área num sistema, prestes a constituir um novo big-bang. E eu já deveria ter concordado com a vida, que nos entregou de forma adversa, mas é verdade que desejo até que você esteja sempre só.
Meus ciúmes refletem o medo de perder o que nem é meu. Por que é que Deus criou o sentimento? Queria que ele pudesse descer até aqui, nesse banco gélido, e me explicasse a razão, apontasse-me uma saída.
Porém, você acaba sendo sempre a minha saída, visto que nesse drama que desnorteia, sou um masoquista declarado e você é a instituição da minha tortura.
Ter o meu pensamento dominado por você é uma junção das coisas que mais amo e que mais odeio. As constantes gargalhadas estampadas em meu rosto, escondem cuidadosamente essa angústia que há em minhas entranhas.
Desde aquele primeiro instante, em que minha pré-adolescência se cruzou com teu jardim de infância, essa novela mexicana teve início.
São anos de martírio desnecessário, mas cada parcela de tempo que posso estar junto de seu corpo, quando tenho o meu território invadido pelos teus pés reafirmo-me nesse complexo devaneio da desilusão.
Somos como dois planetas distintos ocupando a mesma área num sistema, prestes a constituir um novo big-bang. E eu já deveria ter concordado com a vida, que nos entregou de forma adversa, mas é verdade que desejo até que você esteja sempre só.
Meus ciúmes refletem o medo de perder o que nem é meu. Por que é que Deus criou o sentimento? Queria que ele pudesse descer até aqui, nesse banco gélido, e me explicasse a razão, apontasse-me uma saída.
Porém, você acaba sendo sempre a minha saída, visto que nesse drama que desnorteia, sou um masoquista declarado e você é a instituição da minha tortura.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Espelho Cíclico


Durante um longo período em nosso país, onde reinam intolerância e impunidade, as pessoas idosas foram duramente esquecidas pelo Estado. Os anos 2000, chegaram como um brotar de esperança a essa significativa parcela populacional, através da implementação de políticas públicas mais eficazes e, especialmente, pela vigoração do Estatuto do Idoso.
Numa sociedade como a nossa, em que a noção de direitos se perde em meio à banalidade da justiça e que viver implica num exercício de tolerar adversidades, acaba tornando-se fundamental leis que atendam às vulneráveis minorias, como é o caso da pessoa idosa e de seu Estatuto, que além de oferecer direitos óbvios serve para minimizar e controlar o amplo desrespeito que sofrem os idosos, que não só no ambiente doméstico, são também vítimas fáceis na vida urbana através da ação de bandidos, da imprudência de certos funcionários do transporte público e da falta de valores da juventude atual, que simplesmente se esquece do amanhã e "escanteia" quem tanto já fez pelo país.
Fato é que nos últimos anos a população vem tendo cada vez mais uma maior expectativa de vida, ou seja, os jovens de hoje provavelmente chegarão facilmente à terceira idade. O lamentável é que não há por parte dos jovens, em sua maioria, uma consciência de respeito ao exercício dos direitos dos idosos, o que acarreta numa "desgarantia" ao seu próprio (e próximo) futuro.
Assim, nessa vida que é eternamente cíclica e que se procede como num "dejà-vú" diário, a nossa juventude deveria perceber a dádiva que há em ter uma bagagem de décadas na vida e respeitar as pessoas idosas enxergando nelas um digno espelho do seu amanhã.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Retalhos

Minha casa está vazia. Os móveis e retratos ofuscam poucas frestas de luz. Tudo gira em foco preto-e-branco.
Passo os dedos nos lábios, a boca está seca. Consigo beber alguns goles, mas minha língua continua áspera.
Saio até o quintal, corro desvairadamente com meus cachorros, da mesma forma que amava fazer quando tinha oito anos. Logo um cansaço bate. Na última volta minha testa é cortada por um fio de náilon. O sangue nem pinga, endurece feito um ferimento no asfalto. Retorno ao meu vazio. Uma latência gigantesca toma conta do meu corpo. Nenhum barulho consegue chegar aos meus tímpanos. É um silêncio precioso.
Recolho uma muda de roupas, apanho uma toalha no varal. São 16h e no alto da cozinha se emite uma luminosidade negra. Entro no banheiro. As roupas deslizam em minha pele oleosa. Deixo a lâmpada apagada.
Do chuveiro, vejo-me perfeitamente através de um caco de vidro solto na parede oposta. Enxergo medo e angústia, sonhos e amor. Uma aparente sensação amarga. Solidão sublime. Encosto as narinas em minhas mãos, sinto cheiro de espírito jovem. Seria a introdução a um nirvana?!.
Um emaranhado de imagens se projeta em meu consciente, chegam a assemelhar-se com rosas brotando num arame farpado repleto de ferrugem. Solto um berro mudo. A água não pára de cair. Egoísmo imediato, nem se quer penso na Mãe, nem se quer crio coragem para desligar o chuveiro. E esse momento se torna único. Tudo retrocede e transpassa. Minhas mãos quase limpas vão decifrando meu corpo sujo. Meu cabelo está encharcado, minhas sombracelhas ásperas não protegem mais nada.
Inclino minha face fazendo com que a água sufoque meu ar. Meu corpo titubeia e quase cai. Repito tal ação algumas vezes. Descubro que a tal apnéia é mais excitante que cheirar éter, bem mais alucinante que sugar uma planta, talvez tão prazeroso quanto exaltar Baco* no Velho Recife.
Percebo-me mais leve. Enxugo a minha matéria. Visto uma nova roupa. Sento-me no meio da sala.
Fecho os olhos e estou no refúgio da Rua da Aurora. Tão longe de casa, tão perto da vida. Deito o meu corpo magro no chão limpo da Cidade Cinza. As folhas secas fazem sincronias. Os carros não passam. A beleza marginal está inabitada. O vento direciona o meu olhar até uma alta placa de sinalização. Ela balança desnorteada como uma palavra dita sem cuidado, feito uma bailarina bêbeda sem platéia: exatamente igual a como estava a minha alma. Vomito. O concreto histórico arranha minhas unhas. O sol bate com cuidado nos meus olhos. Ergo-me e percebo que nem é tão ruim assim.
Sento-me no meio da sala. Afago minha cadela. Faço um braseiro sem chamas com o isqueiro. Na vitrola ecoa em volume ambiente "Non, je ne Regrette Rien", o hino de Piaf. Suspiro duas vezes e solto risos bobos. Tenho de estudar algo, retorno a rotina das horas.
Fundo preto com letras brancas em itálico: aparece o título da obra.
domingo, 23 de agosto de 2009
Como a Literatura Cria Laços
Num feriado consumista de Dia dos Pais altamente nublado era nítido que não seria uma ideia sensata se dirigir até a redenção boêmia e noturna do Recife Antigo, porém algo internamente pulsava um desejo de caminhar, e foi exatamente o que fiz.
Alternativo da cabeça aos pés e carregando nas mãos "Bagagem", deliciosa obra poética de Adélia Prado, cheguei na Praça do Arsenal onde logo encontrei gente conhecida. Foi logo que um Homem aparentemente estranho se comunicou com um amigo meu, Bruno, e a rotineira discriminação me fez assumir postura imediata de receio.
Passaram-se alguns minutos. O mesmo Homem sentou ao meu lado. De um canto tocava o típico "forró de R$1", do outro ecoavam gravações sublimes de Vanessa da Mata. O Homem olhou para as minhas mãos e disse: "Posso dar uma 'sacada'?! Eu também gosto de ler". Entreguei-lhe o livro um tanto cabreiro e sem mencionar uma só palavra.
Bastaram uns oito ou dez minutos para que meus olhos começassem a se inundar. Aquele homem de aspecto maltrapilho, cheiro desagradável, e na cia de bebidas e um outro homem estranho, despiu a minha moral. Empolgado ele me falava dos livros que devora, me fez surpreendentes análises literárias de obras como "O Caçador de Pipas", "Cidade do Sol" e "O Guarani". Impressionado eu ouvia cada frase inteligente sem ousar interromper. A todo instante ele se desculpava por uma provável inconveniência. "De maneira alguma", respondia-lhe com interação. E ele me encantava com sua vida. Me dizia o quanto o cotidiano é cruel quando não se tem oportunidades e se mostrava surpreso com a minha atenção: "Poucas pessoas na vida me deram uns cinco minutos de ouvido, sabe?! Eu ainda sou um homem, mas um dia serei O Homem. Só não tive ainda quem me desse uma mão. Sei que não levo uma vida correta, mas irei mudar". Assim, eu dizia com cuidado a ele que nunca é tarde. E ele continuou: "Mas, me diga, qual é a sua graça?!" Disse-lhe o meu nome e perguntei o dele. O nobre Carlos então estendeu-me sua mão. "Estou sempre nas bibliotecas, mesmo que me olhem por baixo, já me acostumei. E todo dia sempre compro meu jornal, aquele de 'pobre' mesmo, de R$0,25, mas é que eu quero estar informado, para que nenhum outro possa pisar em mim só por ter Oportunidades".Oportunidades...era isso! Aquele homem que vive à margem, que é a representação perfeita do gueto, uma notória vítima do capitalismo ainda se mostrava feliz mediante à sua falta de oportunidades. Nos despedimos pela primeira vez.
Alguns passos mais a diante, nitidamente emocionado eu partilhava ao meu amigo Bruno todo o meu encantamento, contava-lhe sobre a conversa que valia por todo aprendizado que já tive, pelo instante que me fez crescer como nunca antes. Foi só o tempo de Carlos já está ali presente sensibilizando Bruno da mesma forma, incentivando-o a ler mais: "E não é só livro não, é até o outdoor que você vê na rua, a pessoa falando na praça", dizia aquele Sábio fantasiado de Maltrapilho. Nos falou ainda de sua paixão por Cazuza, analisou as composições e mencionou até sua opinião em relação à reforma ortográfica! Depois recordou de sua avó mencionando uma frase que ela lhe contara na infância: "Meu filho, não importa a força braçal de um homem, mas sim a lógica que há na mente dele". Algumas pessoas que estavam próximas achavam graça ao ver dois jovens dando atenção a um provável "bêbado".
Estupefatos, íamos embora lembrando cada filosofia daquele Homem, que obedecendo a gramática ou não, se expressava melhor do que muita gente letrada.
Então, após recusar a insistência de meu amigo em me acompanhar com sua turminha até a Av. Guararapes, temendo ser inconveniente, segui sozinho o meu caminho. Foi aí que ouvi a voz de Carlos a me chamar do outro lado da rua. Vendo que estava sozinho naquele perigo diário, me convidou a atravessar a ponte junto a ele e seu estranho amigo.
E a melhor conversa que já tive na vida continuou com brilho. Logo atrás se aproximavam dois meninos de rua, após repreendê-los, Carlos disse-me: "Não se preocupe, pode andar tranquilo, aqui comigo ninguém vai mexer com você". Assim, continuamos a falar de música, literatura e tudo mais que se expressa por leitura. Ele ainda me contou que tem três filhos e que era eletricista por formação, depois me perguntou curioso quais eram minhas aspirações profissionais, alertando-me inclusive, quanto aos impecílios do mercado de trabalho nas áreas.
A todo percurso, o olhar tenebroso do seu companheiro me dava calafrios. Foi então que sem exitar, ele agarrou o bolso de minha calça. Tive um susto imediato, mas O Leitor logo me salvou: "Enlouqueceu?! Querer maldar com um menino bom desses?! É meu amigo, pô!" O meu ex-quase assaltante ficou para trás e meu novo amigo me acompanhou até o ponto de ônibus. No meio da conversa descobri que moramos no mesmo bairro, que umas tantas travessias nos separam, mas não o confidenciei esse fato.
Ele ficava lisonjeado e irritado quando o chamava educadamente por "senhor", termo que de fato lhe era digno: ele era um exímio Senhor da vida. Assim, ele me dizia que eu seria um "protegido" seu nas ruas, que qualquer problema era só lhe procurar. Achando engraçado, eu o agradeci, ressaltando-lhe o quão iluminado ele é. Ele concluiu: "Iluminado é você. Sua aura é grande, menino. Os seus olhos são verdadeiros e me olharam na alma". Lisonjeado eu guardava cada palavra. Ele, sorrindo, disse: "Quando nos veremos de novo?! Já sei...nunca mais, né?!" Ao que lhe respondi: "Não. Sempre que o encontrar, esteja com quem estiver, pararei para cumprimentá-lo. Estou quase todos os domingos ali, no Bom Jesus". Carlos finalizou: "Pronto, nos vemos domingo, então. Pode me fazer um favor?!" Entusiasmado respondi com um "lógico que sim" dito num fôlego atropelado. E ele continuou: "Me traga um livro".
Após romper todos as minhas barreiras, o abracei me despedindo. Voltei para casa com lágrimas e com a mente bem leve. Contava as paradas para chegar em casa e poder desabafar todas essas palavras sobre uma experiência inefável em minha jovem Bagagem, pois pela primeira vez me senti prática além de teoria, descobri que posso estar num papo requintado numa mesa de bar sobre a encenação do espetáculo tal como também aprender a viver com o escanteado na esquina. Nunca esquecerei aquela noite de 10 de Agosto.
E eu precisava partilhar isso, me dispor a construir essa Epifania, como mesmo nos diz Adélia Prado, pois o meu artifício é escrever. Não me importa se tenho ou terei a licença literária ou poética dos Sapos letrados, pois se minha voz consegue chegar a um outro adolescente na frente de um computador e tocar um pouco a sua mente, estou satisfeito.
Antes que me esqueça: Obrigado, Carlos. Obrigado, Adélia.
Viva sempre a Literatura!
Alternativo da cabeça aos pés e carregando nas mãos "Bagagem", deliciosa obra poética de Adélia Prado, cheguei na Praça do Arsenal onde logo encontrei gente conhecida. Foi logo que um Homem aparentemente estranho se comunicou com um amigo meu, Bruno, e a rotineira discriminação me fez assumir postura imediata de receio.
Passaram-se alguns minutos. O mesmo Homem sentou ao meu lado. De um canto tocava o típico "forró de R$1", do outro ecoavam gravações sublimes de Vanessa da Mata. O Homem olhou para as minhas mãos e disse: "Posso dar uma 'sacada'?! Eu também gosto de ler". Entreguei-lhe o livro um tanto cabreiro e sem mencionar uma só palavra.
Bastaram uns oito ou dez minutos para que meus olhos começassem a se inundar. Aquele homem de aspecto maltrapilho, cheiro desagradável, e na cia de bebidas e um outro homem estranho, despiu a minha moral. Empolgado ele me falava dos livros que devora, me fez surpreendentes análises literárias de obras como "O Caçador de Pipas", "Cidade do Sol" e "O Guarani". Impressionado eu ouvia cada frase inteligente sem ousar interromper. A todo instante ele se desculpava por uma provável inconveniência. "De maneira alguma", respondia-lhe com interação. E ele me encantava com sua vida. Me dizia o quanto o cotidiano é cruel quando não se tem oportunidades e se mostrava surpreso com a minha atenção: "Poucas pessoas na vida me deram uns cinco minutos de ouvido, sabe?! Eu ainda sou um homem, mas um dia serei O Homem. Só não tive ainda quem me desse uma mão. Sei que não levo uma vida correta, mas irei mudar". Assim, eu dizia com cuidado a ele que nunca é tarde. E ele continuou: "Mas, me diga, qual é a sua graça?!" Disse-lhe o meu nome e perguntei o dele. O nobre Carlos então estendeu-me sua mão. "Estou sempre nas bibliotecas, mesmo que me olhem por baixo, já me acostumei. E todo dia sempre compro meu jornal, aquele de 'pobre' mesmo, de R$0,25, mas é que eu quero estar informado, para que nenhum outro possa pisar em mim só por ter Oportunidades".Oportunidades...era isso! Aquele homem que vive à margem, que é a representação perfeita do gueto, uma notória vítima do capitalismo ainda se mostrava feliz mediante à sua falta de oportunidades. Nos despedimos pela primeira vez.
Alguns passos mais a diante, nitidamente emocionado eu partilhava ao meu amigo Bruno todo o meu encantamento, contava-lhe sobre a conversa que valia por todo aprendizado que já tive, pelo instante que me fez crescer como nunca antes. Foi só o tempo de Carlos já está ali presente sensibilizando Bruno da mesma forma, incentivando-o a ler mais: "E não é só livro não, é até o outdoor que você vê na rua, a pessoa falando na praça", dizia aquele Sábio fantasiado de Maltrapilho. Nos falou ainda de sua paixão por Cazuza, analisou as composições e mencionou até sua opinião em relação à reforma ortográfica! Depois recordou de sua avó mencionando uma frase que ela lhe contara na infância: "Meu filho, não importa a força braçal de um homem, mas sim a lógica que há na mente dele". Algumas pessoas que estavam próximas achavam graça ao ver dois jovens dando atenção a um provável "bêbado".
Estupefatos, íamos embora lembrando cada filosofia daquele Homem, que obedecendo a gramática ou não, se expressava melhor do que muita gente letrada.
Então, após recusar a insistência de meu amigo em me acompanhar com sua turminha até a Av. Guararapes, temendo ser inconveniente, segui sozinho o meu caminho. Foi aí que ouvi a voz de Carlos a me chamar do outro lado da rua. Vendo que estava sozinho naquele perigo diário, me convidou a atravessar a ponte junto a ele e seu estranho amigo.
E a melhor conversa que já tive na vida continuou com brilho. Logo atrás se aproximavam dois meninos de rua, após repreendê-los, Carlos disse-me: "Não se preocupe, pode andar tranquilo, aqui comigo ninguém vai mexer com você". Assim, continuamos a falar de música, literatura e tudo mais que se expressa por leitura. Ele ainda me contou que tem três filhos e que era eletricista por formação, depois me perguntou curioso quais eram minhas aspirações profissionais, alertando-me inclusive, quanto aos impecílios do mercado de trabalho nas áreas.
A todo percurso, o olhar tenebroso do seu companheiro me dava calafrios. Foi então que sem exitar, ele agarrou o bolso de minha calça. Tive um susto imediato, mas O Leitor logo me salvou: "Enlouqueceu?! Querer maldar com um menino bom desses?! É meu amigo, pô!" O meu ex-quase assaltante ficou para trás e meu novo amigo me acompanhou até o ponto de ônibus. No meio da conversa descobri que moramos no mesmo bairro, que umas tantas travessias nos separam, mas não o confidenciei esse fato.
Ele ficava lisonjeado e irritado quando o chamava educadamente por "senhor", termo que de fato lhe era digno: ele era um exímio Senhor da vida. Assim, ele me dizia que eu seria um "protegido" seu nas ruas, que qualquer problema era só lhe procurar. Achando engraçado, eu o agradeci, ressaltando-lhe o quão iluminado ele é. Ele concluiu: "Iluminado é você. Sua aura é grande, menino. Os seus olhos são verdadeiros e me olharam na alma". Lisonjeado eu guardava cada palavra. Ele, sorrindo, disse: "Quando nos veremos de novo?! Já sei...nunca mais, né?!" Ao que lhe respondi: "Não. Sempre que o encontrar, esteja com quem estiver, pararei para cumprimentá-lo. Estou quase todos os domingos ali, no Bom Jesus". Carlos finalizou: "Pronto, nos vemos domingo, então. Pode me fazer um favor?!" Entusiasmado respondi com um "lógico que sim" dito num fôlego atropelado. E ele continuou: "Me traga um livro".
Após romper todos as minhas barreiras, o abracei me despedindo. Voltei para casa com lágrimas e com a mente bem leve. Contava as paradas para chegar em casa e poder desabafar todas essas palavras sobre uma experiência inefável em minha jovem Bagagem, pois pela primeira vez me senti prática além de teoria, descobri que posso estar num papo requintado numa mesa de bar sobre a encenação do espetáculo tal como também aprender a viver com o escanteado na esquina. Nunca esquecerei aquela noite de 10 de Agosto.
E eu precisava partilhar isso, me dispor a construir essa Epifania, como mesmo nos diz Adélia Prado, pois o meu artifício é escrever. Não me importa se tenho ou terei a licença literária ou poética dos Sapos letrados, pois se minha voz consegue chegar a um outro adolescente na frente de um computador e tocar um pouco a sua mente, estou satisfeito.
Antes que me esqueça: Obrigado, Carlos. Obrigado, Adélia.
Viva sempre a Literatura!
Adieu
O câncer dilacera pouco a pouco.
É uma armadilha cruel do tempo. O Tempo que é traiçoeiro e passageiro.
Abrimos as pálpebras e tudo muda tão de repente, tão arduamente.
A enfermidade depreciou progressivamente.
Mas, não tirou o exemplo, a força, a fé.
Ensinou que a cada abismo há sempre uma fresta firme de sapiência, a quem estava doente e a quem observou com lamento.
O inesperado sempre nos mostra o quanto estamos vulneráveis e o quanto temos a aprender.
Foi doloroso ver o seu estado e comparar com as memórias do recente passado. Contudo também foi de um grande louvor ver a esperança renovada naquele olhar dificultado pelo tumor, naquelas palavras vibrantes e iluminadas ditas com dificuldade imposta pelas chagas.
Mais de um ano de luta. Daqui para frente é o Luto pelo Adeus repentino.
As imagens que guardarei são daquele perfil de patriarca, daquela solidariedade, daquela enorme serenidade. Guardarei também, é verdade, a certeza de que poderia ter feito um mínimo de mais, que talvez fui inocentemente egoísta.
E as suas palavras ecoarão como um grande hino em meu consciente.
Descanse em paz, Grande Tio.
É uma armadilha cruel do tempo. O Tempo que é traiçoeiro e passageiro.
Abrimos as pálpebras e tudo muda tão de repente, tão arduamente.
A enfermidade depreciou progressivamente.
Mas, não tirou o exemplo, a força, a fé.
Ensinou que a cada abismo há sempre uma fresta firme de sapiência, a quem estava doente e a quem observou com lamento.
O inesperado sempre nos mostra o quanto estamos vulneráveis e o quanto temos a aprender.
Foi doloroso ver o seu estado e comparar com as memórias do recente passado. Contudo também foi de um grande louvor ver a esperança renovada naquele olhar dificultado pelo tumor, naquelas palavras vibrantes e iluminadas ditas com dificuldade imposta pelas chagas.
Mais de um ano de luta. Daqui para frente é o Luto pelo Adeus repentino.
As imagens que guardarei são daquele perfil de patriarca, daquela solidariedade, daquela enorme serenidade. Guardarei também, é verdade, a certeza de que poderia ter feito um mínimo de mais, que talvez fui inocentemente egoísta.
E as suas palavras ecoarão como um grande hino em meu consciente.
Descanse em paz, Grande Tio.
sábado, 8 de agosto de 2009
Ciclo Cromático

Minha lânguida face transposta ao espelho.
O que mais enxergo é o rastro da noite.
Eterna e úmida, necessariamente sem ponto.
Que se perde e se busca na leitura da Bagagem.
A minha alegria é negra.
O meu silêncio é claro.
Minha agonia é incolor e minha intrepidez já é ferrugem.
Paralisando imagens, removendo vírgulas.
Entregue ao acaso como um poste.
Mas, renovando sensações feito um rio fluente em águas translúcidas.
Apenas retendo os rumores.
Recolhendo escândalos em azul-neutro.
Montando uma semi-aquarela
da Solidão.
Que retrai e instiga.
Se camufla no sorriso forçado,
de quem quer vencer, amar e provar.
Provar-se. Cromaticamente e pincelado.
Simplesmente alçar a Paz Lilás.
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